quarta-feira, 15 de setembro de 2021

INFLUENCER











É sempre cinza o dia inteiro 

é tão nublado o  teu destino

postando sempre coisas pesadas

falando em Deus, mas é um cretino

Sorrindo sempre, "Picasso falso"

aplaudindo a tempestade

vivendo a vida pela metade

parasitando a sociedade.

Abraça o mundo que não conhece

curtindo tudo o que é bobagem

levando o dia na brincadeira

o que lhe falta é ter coragem.

Teu itinerário eu sei qual é 

internet, raiva e café

Se acha influente na era digital

com seu vocabulário horrível,

o seu português sofrível.

Nunca viu o sol e o mar

se diz jornalista na entrevista

mas nunca fez um vestibular.

O mundo é um pequeno aquário

e você é a espertise total

dividindo sua vidinha

entre ser parasita e comensal.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

À FLORA! UMA PACIENTE MUITO ESPECIAL!












Flora! Flor de floração 

Da escrita, prosa e verso de sua mãe

Constelação de estrelas

em um céu claro de verão

Cabelo fininho, sorriso sincero

Olhos amendoados e puxados

Como se quisesse a visão além do alcance

Narizinho achatado, 

Para buscar os perfumes que o mundo lhe der

Flor de criança no jardim da vida

Esperta! Alerta, amada

Estrela principal da família

do livro, da história, de tudo

Não sabe das trissomias, das armadilhas,

muito menos de 21.

Flora é especial! Especial para a mãe!

Para o pai, para mim em cada encontro.

Flora é assim!

Flor de todos os jardins.

Rosa, lírio, bromélia, encanto

Sonho, vento, terra, sorriso, pranto.

Tomara que sua vida frutifique

Multiplique as horas, os dias, os anos

Que a saúde seja plena, 

como é pleno o amor que irradia.


terça-feira, 31 de agosto de 2021

O QUE IMPORTA AGORA!

 













Venha! Entre na minha vida,

fecho as feridas, prá poder te receber. 

Tente! Olhe nos meus olhos

não sou mais um menino

mas preciso viver

Venha! Sinta meu abraço, 

durma nos meus braços

acorde no meu sol.

Sinta! Entre no meu templo

seja o meu milagre

o vento que sopra meu barco

Quero que sejas minha luz

serei tua coragem

a paz que necessitas prá viver.

Preciso! da tua alegria

da tua bela companhia

para o resto da viagem.

O que importa agora na minha vida

é te amar todos os dias

Nada importa mais na minha vida

além de te amar todos os dias.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

NO FIM DAS CONTAS









 Não há nenhuma diferença

entre o que está aí e o que já foi

Trocaram o patrão

mas ficaram os mesmos bois

Ninguém mais raciocina

só replicam a informação

Ninguém mais lê notícia

Comentários sem noção

Música não tem mais  poesia

Só se ouve aberração.


A ignorância socialista

quer o pão sem trabalhar

canta um hino de igualdade

quer o peixe sem pescar

E o operário que trabalha

mês inteiro pra viver

É roubado e escravizado 

Um leão a lhe comer.


No fim das contas 

eu pago minhas contas

Se quer viver assim

trabalha meu irmão!

No fim da vida                                              

eu escolho minha saída

Se queres um caminho

Abre os olhos e sai da escuridão!

segunda-feira, 26 de julho de 2021

PEDIATRIA! EU, PEDIATRA!













 No silêncio das horas, ouço apenas meus passos

com ou sem direção eles ecoam em minha sala

Boas ações, anti-social, oposição, remando contra a maré

agenda lotada, compromissos, salas de parto, consultas

Entra um, dois, três, pais, mães, avós!

Um não quer entrar, choram dois, sorriam a maioria

Um reclama do atraso, um exige nota, um raro agradece.

Um me abraça, outro me olha desconfiado e me beija no final

Um esperneia, belisca a mãe e chama pelo pai

Um senta na mesa tranquilo, porque confia 

Não vai doer! O tio é bonzinho!

Gritos, choros, risos, sorrisos, gugus, dadás, arrotos,

doenças eternas, passageiras, viroses

doenças maternas, paternas, sociais

auto suficientes, deficientes, especiais, inalcançáveis,

cultura, ignorância, medo, incertezas, 

Certeza que veio ao lugar certo, confiança!

paciência, intolerância, presteza, 

simplicidade, grosseria, traquinagem

hiperatividade, angústia, déficit de atenção

sorrisos perfeitos, mães despreparadas

mal formados, amados, mães interessadas

Nada é para sempre! Tudo é possível.

Nem sempre, nem nunca! Cura!

Há esperança! Não há possibilidades. Há esperança!

O tio, o médico, o doutor, o palhaço!

Humano, passível de erro, sem erro! O pediatra!

Crua, nua, desvalorizada, persistente, sobrevivente!

A pediatria!

segunda-feira, 17 de maio de 2021

MEMÓRIAS DO AUXILIADORA - A ESTRANHA REDAÇÃO

 









Naqueles anos dourados em que a adolescência se aproximava, os hormônios estavam à flor da pele e começavam a mexer com a gurizada. Apesar dos sonhos mais apimentados havia um respeito enorme entre meninos e meninas e alguns namoricos começavam a se desenhar. As trocas de olhares tímidos, as perseguições silenciosas. Talvez estar perto da menina amada era o mais importante na história . Os tempos eram outros e a timidez não era só um problema meu.

Numa manhã de inverno, um colega de nome Jorge, levou para a sala de aula a página de uma revista pornográfica sueca, daquelas que só se via nas revisteiras e que vinha totalmente lacrada. Ou seja, pouca gente já tinha visto algo semelhante. Hoje é comum achar em qualquer site. Basta acessar a internet e você assiste a todo tipo de pornografia, inclusive vídeos de sexo explícito, mas na época não tínhamos acesso a nada disso. Na página da revista, uma mulher praticava sexo oral em um homem. Um outro colega, não lembro o nome, colocou a foto grudada na parede no fundo da sala. 

Eis que surge na porta o professor de português e literatura, Osni Uber, o tigrão, já falecido, pegando a todos de surpresa, ou como diz a expressão, "com as calças na mão". Muito espirituoso e de uma inteligência ímpar foi até o fundo da sala, retirou a foto, colocou grudada na lousa e falou: - vamos fazer uma redação sobre isso que está aí!

Após fazer um discurso de reprimenda sobre a falta de vergonha e caráter de quem tinha levado aquilo, de autoafirmação, de hormônios e do quão desrespeitosos fomos com as meninas, ele se arrependeu e pediu que as gurias saíssem. Algumas choravam, e após a saída delas, continuou durante mais um tempo com sua feroz manifestação, ameaçando a turma de punição. Após o sermão começamos a fazer a redação sobre a foto com direito a título e tudo. 

Só para lembrar a todos, estudávamos em um colégio salesiano. No dia seguinte, o padre Ervin, diretor da escola foi pedir aos alunos que não divulgassem o ocorrido, que iria manchar a reputação do colégio e tal. A cidade toda já sabia. No resumo da história, Jorge Farah, o aluno que levou a página e o colega que a colocou na parede, foram expulsos. As revistas, após rápida investigação, pertenciam ao pároco que após o trágico acontecimento foi realizar missas em outra paróquia de algum lugar qualquer.

O mundo daria muitas voltas e cada um foi estudar nas mais diversas universidades. Às vezes paro e me pergunto onde andam todos, o que estarão fazendo. Será que ainda tem essas recordações ou elas
se perderam em alguma página do livro da memória? Graças às redes sociais ainda converso com alguns e quase todos os anos encontro parte do grupo da escola. Nesses dias relembramos um pouco do passado, e rimos como se fôssemos aquelas crianças e adolescentes que ficaram eternizados em alguma foto, que viviam o presente a sua maneira e não tinham nenhum medo do futuro porque o futuro era uma interrogação e o presente uma dádiva.

domingo, 16 de maio de 2021

MEMÓRIAS DO AUXILIADORA - MÚSICA E PAIXÃO










 Minha vida até hoje se divide entre as paixões pela família, medicina, literatura e música. A música me acompanhou sempre como se minha vida sempre tivesse uma trilha sonora. E realmente sempre foi assim.

No colégio Auxiliadora sempre era escolhida uma música para entrada da aula. O intervalo era todo musical, com sucessos da época. Quando tocava a música escolhida era a hora de retornar aos estudos. Lembro de "Piu" da Ornela Vanoni. 

Adorava Queen, Abba, Milton Nascimento, Chico Buarque e Bee Gees que me renderam dois bons amigos na época, Sílvio Tavares e Paulo Bispo. O Sílvio tinha quase todos os álbuns da família Gibb e nos encontrávamos para fazer os trabalhos da escola e para ouvir as músicas. Outro irmão que consegui na vida foi o Carlos Nunes, parceiro de confidências, de futebol de mesa, da bola no campinho e no gosto pela música. Era mais jovem do que eu, mas dono de uma cabeça maravilhosa. Meu amigo na infância e adolescência e meu irmão de alma. Ainda encontro sempre que posso e faz parte do meu grupo de bom dia nas redes sociais.

No início do segundo grau implantaram na escola o sistema positivo. Difícil para os alunos que tinham uma base de ensino totalmente diferente e também para os professores. Optei pelo chamado extensivo por achar que seria melhor para me preparar para o vestibular e tinha aula nos dois períodos. Tinha um professor de Geografia chamado Miguel que era muito ruim didaticamente falando. Ele mandava abrir a apostila e apenas sublinhar os pontos que ele achava interessante e que poderiam cair na prova. Fiz uma paródia da música do Chico Buarque, Geni e o Zepelin, acredito que em 1979. que se transformou em "Miguel e o Zepervin". Miguel, o professor, Ervin Conzatti, o diretor, padre tranquilo e solícito. Citei quase todos os funcionários e professores na letra. Em um intervalo ou recreio, como era chamado, alguns colegas pegaram a letra e cantaram inteira, quase gritando. Fiquei apavorado com a possibilidade de ser punido, mas no final rendeu apenas alguns comentários. Na letra o professor de geografia ficava triste porque a professora de inglês, Raquel Brossard, só falava no Osni, professor de Português.

Raquel, sempre linda e educada chegou na aula seguinte explicando o porquê, já que a língua inglesa e portuguesa tinham tudo a ver. Naquele dia fiquei feliz, porque uma letra minha, polêmica é verdade, estava sendo motivo de comentários do corpo docente.

Outro destaque da escola na época era a banda marcial. Além de ser perfeita em suas apresentações comandadas pelo então diretor Lino Fistarol, tinha como destaque as balizas que faziam evoluções e embelezavam os desfiles. Minha prima Lia Martha foi a mascote durante um bom tempo. Lembro ainda da Fernanda, Lígia, Andréa, Viviane,  Simone, minha amiga, e do meu primeiro amor platônico, Maria Emília, a Mila. Minha bicicleta, pandorga, tudo na minha vida tinha o nome de Mila. Até um poema com seu nome escrevi, mas nunca tive coragem para entregar. Foi perdido com outros poemas e contos nas viagens. 

Há alguns anos Léo Jaime escreveu uma canção que me remetia a história com Mila que nunca aconteceu. Dizia " você vai de carro prá escola e eu só vou a pé. Você tem amigos à beça e eu só tenho o Zé prá consolar as tardes de domingo que eu passo a sofrer sonhando em ter um carro conversível prá você me querer..."

Coisas da adolescência! Restam as boas lembranças de um tempo que não volta mais.


sábado, 15 de maio de 2021

MEMÓRIAS DO AUXILIADORA - O INÍCIO











Quando passei para a quinta série fui obrigado a abandonar a segurança do meu grupo escolar. Martinho Saraiva, que ficava na Vila Industrial, a deliciosa sopa que dona Cantalícia fazia e meus primeiros colegas. A escola não tinha segundo grau e eu precisava ir adiante na formação. Com o esforço hercúleo dos meus pais, e com a frase do meu pai que guardei na minha gaveta da vida:  " a maior herança que um pai pode deixar para seus filhos é a educação!", entrei no colégio Nossa Senhora Auxiliadora, que era particular, e segundo muitos, a melhor escola que tinha na cidade. Meu pai havia sido interno lá e só tinha boas recordações.

O começo foi muito difícil. Minha timidez e a distância do colégio atrapalharam um bocado. Não conseguia participar das aulas de educação física, por exemplo, pois não tínhamos transporte que fechasse com os horários. Então, uma vez por semana ia para a biblioteca fazer pesquisa sobre os mais diversos esportes para abonar as faltas. Mesmo assim nunca abri mão do futebol, vôlei ou basquete que tinha antes das aulas e no seu intervalo. Quando perdíamos o último ônibus por ficar jogando, tínhamos que voltar até o km 5 da cidade a pé, Nossa casa ficava no terminal da Ipiranga, onde meu pai trabalhava.

A timidez sempre limitou meus primeiros passos. Mesmo tendo passado em uma eliminatória em sala de aula para cantar no coral da escola, não fui no dia combinado perdendo a chance de fazer algo que eu já amava que era cantar. Joguei damas em um campeonato organizado pelo clube do Padre Adolfo dos Anjos, que também era professor de matemática. Apesar de ter ganho do segundo colocado e empatado com o primeiro, desisti antes das finais, para jogar bola antes das aulas e no recreio. 

Em uma aula de Moral e Cívica, o professor Guido de Moraes, colocou toda a turma sentada em uma roda e questionou sobre nossas futuras profissões. Para delírio e gargalhadas da turma falei que queria ser médico ou padre. Meu futuro estava escrito! Seria médico. Na época eu achava que todo o padre era santo, o que logo nos anos a seguir me mostraria o contrário. A Medicina seria meu caminho e a pediatria já era uma opção. Eu tinha o melhor pediatra do mundo, Dr. Mário Mansur.

Na escola, havia um teatro antigo. Lá tínhamos as aulas de moral e civismo e fazíamos, na grande maioria, teatro da pior qualidade. Um dia descobri a poesia e comecei minha carreira solo fazendo declamações. Tremia mais que vara verde no palco e terminava as apresentações com a colinha de papel na mão esquerda, totalmente desmanchado pelo suor. Com o tempo aprendi a olhar para o infinito na declamação e a imaginar que era apenas eu ali. O palco virou meu amigo e me deu a experiência de falar em público e no futuro, me apresentar nas festas beneficentes com meus amigos músicos.

Com o passar dos anos fiz bons colegas e excelentes amigos. Um deles, Manoel Ernani, estudioso demais e que hoje é Psiquiatra em Porto Alegre. Era colega de aula e de trabalhos. Lembro ainda do Totona e seu irmão Marrota, apelidos de dois dos Bettervides que foram meus amigos do peito. Tinha também o Flávio, Gallo, Sílvio, e o Arturo que na época metia medo em todos .Graças ao Sílvio que acabei encontrando anos mais tarde em uma visita a Aceguá, fui incluido no grupo de bageenses  do whatsap e  convivo pelas redes sociais e sempre que posso ir a Bagé,  encontro alguns deles e falamos dos bons tempos de Auxiliadora.

Até o final do segundo grau foi uma jornada longa, sempre me equilibrando em cima das notas, que na caderneta escolar pareciam um grenal, notas azuis e vermelhas. Só que as vermelhas não eram do bem. Eram baixas em matemática, depois em Física, e altas em Biologia, História e Literatura. Não sei quando descobri a leitura, mas me tornei um rato de biblioteca, com fichas na escola e nas bibliotecas pública e do Sesi, lendo todos os clássicos que me caíam na mão, especialmente na literatura dos períodos romântico e realista brasileiros. Se hoje sou um defensor da leitura  agradeço a meus pais que me incentivaram a ler, me dando alguns livros de presente,  e a meu avô Gringo que não dispensou um bom livro e leu até o fim da vida.

Minha timidez continuou a me acompanhar, então comecei a escrever. Eram poemas e contos que se perderam no meio de tantas mudanças, mas que também mudaram minha percepção de mundo. Era um sonhador. Sonhava com o amor de uma menina, com a eternidade dos meus pais e avós e que todas essas amizades permaneceriam para sempre.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

OS PRIMEIROS ANOS FORA DE CASA








No primeiro ano de faculdade, em Passo Fundo, morei com mais dois caras em uma quitinete na rua uruguai. Morávamos no sexto andar de um prédio que de longe parecia um varal gigante, já que em todas as janelas ficavam roupas dependuradas para secar ao sol ou ao vento.  Eu, Norberto, que fazia Contábeis à noite e sonhava fazer Odontologia, e Rubens, que trabalhava na receita federal. 

Conheci Rubens através de um colega e amigo do cursinho, Miguel, outro que almejava odonto e mais tarde foi aprovado no vestibular. Norberto já morava no 603 e era dono de um fogão quatro bocas, uma geladeira do século passado, um beliche, uma pequena mesa de madeira e uma tv preto e branco de ínfimas polegadas. 

Conto essa história também para servir de motivação para outros jovens que saem de casa cheio de sonhos e muitas vezes se deparam com dificuldades e acabam desistindo. Encontramos na caminhada pessoas de todas as origens, boas e más, mãos abertas e muquiranas, sonhadores e realistas e até derrotistas que nublam os nossos melhores dias de sol. 

Dividir uma quitinete com mais duas pessoas não foi uma aventura fácil, assim como nunca foi fácil a faculdade que escolhi para fazer. Norberto ia para a casa dos seus pais quase todos os finais de semana, pois morava em uma cidade relativamente próxima. Na segunda, chegava com parte da comida pronta para a semana inteira, tudo em potes e vidros de nescafé. Embora, sempre educado e solícito e me oferecesse alguma coisa para degustar, a comida era dele. Eu e Rubens nos revezávamos na cozinha, Dia um, dia outro. Coisas rápidas mas que ficavam boas. E a fome sempre foi nossa melhor cozinheira. A dificuldade maior era quando tínhamos que dividir a minúscula cozinha que ficava na entrada do apartamento. Norberto aquecendo seus alimentos e eu tentando fazer os nossos. Quando o Rubens resolvia ficar no apê no domingo, o almoço era especial: arroz, maionese feita por mim e uma coxa completa de frango para cada um.  

Rubens dormia na parte de baixo do beliche, Norberto na parte de cima e eu em um bicama comprado pelos meus pais, que era nosso sofá de dia e minha cama à noite. 

Disputávamos diariamente os baldes, dois, para deixar de molho as roupas. As minhas roupas brancas eram motivo de brigas porque necessitavam de mais tempo de alvejante. Lavava e passava minhas roupas e até o pequeno varal era disputado pela gente. 

Para estudar, e como tínhamos apenas uma  mesa, fiz uma mesa em cima do tanque de lavar roupas. Era um cubículo, mas lá tinha silêncio para poder me concentrar nos estudos, dividindo os períodos com a lavagem das roupas. 

Sempre nos demos bem. O único stress que tivemos foi quando o Norberto resolveu cobrar o aluguel do fogão e da geladeira. Contei para o meu pai, que muito espirituoso sugeriu ao Norberto que levasse embora sua geladeira e fogão. Iria comprá-los e ele não precisaria pagar o aluguel. Aquilo "tocou" o coração do italiano que acabou mudando de ideia. Outro colega meu, pobre e negro falou que era meio escravizado por outro colega da mesma turma para dividir o apartamento com ele. Tinha que cuidar da limpeza do mesmo todos os dias e ainda com aula, em dois a três turnos e estudar.

Conhecia todos os moradores do prédio e quase todos os finais de semana havia jantar em um apartamento de um ou outro. Galinhada, carreteiro e às vezes um estrogonofe de carne acompanhado pelo vinho "Quinta do Monte", garrafão de cinco litros. Muitas vezes almocei com outros colegas, que como eu, viviam com muito pouco, mas dividiam o que tinham com outras pessoas. Antonio, hoje, médico em Mandaguari, Delmar, anestesista em Passo Fundo, Fernando, neurofisiologista e Alexandre, clínico, irmãos que levo para a vida toda. 

Durante a formação fiz plantões no pa, aprendendo o básico. No terceiro fui fazer plantões no interior durante catorze dias. Após a chegada do meu primeiro diploma, minha filha que amo muito, comecei a trabalhar de segunda à quinta, à noite no pronto socorro de fraturas. Foi meu primeiro emprego com carteira assinada. Aprendi a fazer gesso, raio-x, além de ser o faxineiro. E na residência, além dos plantões a cada quatro dias, fazia pelo menos dois plantões de setenta e duas horas nos fins de semana na cidade de Erechim.

A vida estudantil foi difícil, com filho e tudo mais, mas foi uma das etapas mais felizes da minha vida. Ter uma família boa e que te apoia, amigos que viram irmãos, aproveitar as chances que a vida te dá acompanhando bons professores, aprendendo a ter limites, fazer só o que sabe e não inventar milagres, boa vontade de encarar os desafios que a profissão vai te trazer, ser ético, são alguns dos ensinamentos que cada pessoa que cruzou o meu caminho me trouxe. 

Hoje valorizo cada passo que dei, cada um que cruzou o meu caminho e aprendi a amar. Pequenas coisas que me fizeram o homem e profissional que sou.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

PERDIDO EM MEUS PENSAMENTOS























Pensei que a vida fosse doce, 
pastilhas e balas, sonhos de moço,
nada de dor, galopes ao vento,
finais de tarde azuis de sol pôr. 
Pensei que a vida fosse um circo 
trapézios, palhaços, no picadeiro, 
bailarinos, motoqueiros no globo da morte
entregues à sorte, sem saber como lutar. 
Pensei que a amizade fosse sadia
e a competição, uma farsa doentia 
a felicidade, uma questão de tempo, 
mas era só um feliz momento.
Pensei que a chuva fosse garoa
molhando as casas, telhado de zinco, 
o cheiro da terra, os frutos, as flores 
não sabia das enchentes, 
nem da frustração dos amores. 
Pensei que fosse comédia 
risos, abraços, anéis, mãos e laços,
sem culpas, desculpas, promessas desfeitas, 
transbordando nos copos. 
Pensei que aquele amigo que partiu comigo
estivesse bem sorrindo pra vida, em clara euforia
mas que ironia, estava sozinho e doente
vítima de uma epidemia.
Pensei que em nossos caminhos
não houvessem espinhos ou ervas daninhas 
e que as crianças não passassem fome,
nem fossem brinquedos quebrados 
pelas mãos do homem. 
Pensei que o meu trabalho mudasse essa gente, 
abrissem as mentes, que lessem mais livros, 
fossem mais amigos, olhassem o futuro,
pensassem caminhos livres da ignorância,
não deram importância, não é de comer,
não querem pensar apenas sobreviver.
E nesses descaminhos, nesses desgovernos
insisto na vida, galopo sem freio 
peço que meus filhos se tornem iguais
semeando sementes em terra decente 
e colham os frutos, de amor e de paz.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

QUEM DIRIA!














 A linha que tracei para minha vida deu um nó

Estava acompanhado e ao mesmo tempo estava só

Perdido em meus caminhos vi tanta gente passar

Pisei em tantos espinhos para tua flor eu ver brotar

E eu, quem diria, cheguei a um lugar

Abri minha mente para enfim te encontrar.

A estrada que segui não percebi alguns sinais

que me mostrassem algo que não fosse apenas caos

A luz que me guiava era mais fraca do que eu

A voz que me falava , minha torre de babel.

E eu, quem diria, achei meu lugar

Tua luz me ilumina

Teu abraço, meu porto final.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

POEMINHA DA VOLTA!













 Hoje parei para tomar um mate

ao meu lado, meu amor servia a cuia

Lembrei-me a minha infância,

de outra páscoa

e do medo de enfrentar a aleluia

Das correrias, minhas tardes campesinas

de jogar bola com amigos de toda a vida

da pandorga, que o céu todo coloria

e da prosa das tardes tão compridas

Das festinhas da garagem lá de casa, 

a liturgia preparada com carinho

a timidez da primeira namorada

e as charlas mudas no cochicho das vizinhas.

Hoje distante da família e dos amigos

parece que o pago é em outro planeta

Os descaminhos e os vales percorridos

nos fazem tristes e felizes por sonhar

um dia voltar montado na cauda de um cometa.

Embora o tempo continue em seu galope

e já não tenha mais idade para montar

hoje, mateio com a prenda mais bonita

que no meu rancho escolheu para morar.

Passam-se os anos e a vontade é retornar

para a fronteira que divide o coração

Lá tem família, mãe, irmãos, é meu lugar

levar comigo meu amor e o chimarrão.

domingo, 4 de abril de 2021

SIGA LÁ UMA CANÇÃO

 













Siga lá uma canção 

que fale da vida e da alegria

da vontade de vivê-la

Siga lá a esperança 

de ver terminar essa epidemia,

pandemia, da vacina

dos amigos dessa vida

Olho outros olhos vejo medo

surtam sem saber o que perseguem

tento fazer versos mais bonitos

mas os dias mais bonitos foram embora

Siga lá meu coração

que ainda bate na certeza

de outros dias, outro sóis, outras luas

e encontros, de abraços das pessoas

Olho outros olhos vejo a guerra

guerra invisível que nos leva

A ignorância veste a mente

dos que não plantam sementes

mas querem colher os frutos.

segunda-feira, 29 de março de 2021

FARINHA DO MESMO SACO!









 No início dos anos 80, finalizamos um ciclo em Bagé e mudamos para Passo Fundo. Meu pai foi promovido à gerente da Ipiranga, distribuidora de petróleo. Dois motivos de orgulho, a promoção de um cara que vestiu sempre a camisa da empresa e que ocupava o cargo de escriturário (auxiliar administrativo) e ao mesmo tempo encerrava o segundo grau junto comigo. Por sinal eu acabei indo receber o seu diploma já que estava em seu novo cargo em sua nova cidade.

Lá  conheci a pizza italiana e o xis de verdade, além da sopa de agnoline, servida em um casamento em Nova Bassano como entrada, o que estranhei muito, e lá comecei minha experiência política.

Entrei para um cursinho pré-vestibular chamado Gama, que pertencia aos professores Romero, de Física, e Salete, a Saletinha, como gostava de ser chamada, que ministrava Química. Fiz bons amigos: Jair, que faleceu precocemente em um acidente de moto logo depois de passar em Odontologia, Miguel, Glaucia, Sandra e Sarita. 

Miguel tinha um irmão petista de carteirinha e como a sede do PT era praticamente vizinha do cursinho, começamos a frequentar as reuniões. Na faculdade fui líder estudantil e presidente do diretório acadêmico, além de secretário de imprensa. Logo ideias socialistas de acabar com a pobreza, valorizar a educação e trabalho para todos começaram a fazer parte da minha vida de idealista e sonhador. Enfim, o tão esperado futuro da nação viraria presente.

Do nada surgiu um tal de "caçador de marajás", Fernando Collor de Mello, que em seu programa de campanha inclusive usou a ex-mulher de Lula para chocar a opinião pública e vencer as eleições. Assim como caçou, foi cassado, envolvido em escândalos por todos os lados. Estava desenhado o caminho para um salvador da pátria, Lula da Silva.

Muitos colegas ligados à Brizola me diziam: Jaime, um metalúrgico, analfabeto, aposentado por causa de um dedo. Precisamos de mais! Mas meu argumento era mais forte. Não era um analfabeto apenas. Era um homem sofrido e envolvido com as causas sociais. Tinha excelentes nomes que o ajudariam a governar: Aluísio Mercadante, José Genoíno, José Dirceu, Raul Pont, Tarso Genro, pessoas que representavam o ideal pregado pelo partido.

Talvez, os primeiros dois anos de governo foram de inspiração. A inflação caiu, aumentaram os empregos e o país começou a sonhar. 

Com o passar dos anos virou um conto de fadas de terror. O príncipe virou o sapo barbudo. Os escândalos triplicaram. Mensalão, petrolão, desvios de grandes somas, saques no BNDES para financiar obras em países com ditaduras sangrentas. Acabou com a faculdade de  Jornalismo, quadruplicaram as faculdades de Medicina, sem mestres, sem doutores, sem sedes, formando péssimos profissionais, talvez para ficarem ao nível do "mais médicos" que começara a entrar no país.

O sonho virou pesadelo. E o resto vocês já sabem. Entrou uma presidente com o cérebro lesado, manipulada pelo partido. Dona de discursos com frases de efeito, sem pé nem cabeça.

Acabara a época dos políticos sérios, estudiosos e de confiança. que entravam no governo com o seu capital  e saíam com o mesmo, sem adquirir grandes posses.

Para derrubar a ditadura petista que se instalara, restou apenas o projeto de um tenente que na aposentadoria, e somente com ela, recebeu o título de capitão do exército. Com fama de religioso, cheio de princípios e que não media palavras para demonstrar sua insatisfação com a corrupção instalada e a insegurança do povo chegou ao poder não por ser o cara ideal, mas porque não tinha outro melhor.

Mas, parece que estamos fadados a ser governados por pessoas desgovernadas. Do mito nada restou! Com uma língua maior do que a boca, insensível a tudo e a todos, perdeu o trem da história por sua total incompetência de governar. Por não aceitar ser contrariado, pelas más escolhas para os ministérios, por se cercar de pessoas que falam o nome de Deus em vão o tempo todo e pela má criação dos filhos, que estão enriquecendo, como assim fizeram os filhos de Lula, mas não em silêncio. Falastrôes como o pai, ostentam seu crescimento nas redes sociais e na cara dos seus eleitores miseráveis.

Ainda temos dois anos pela frente. Não creio mais nos políticos, principalmente nos que usam a religião e o nome de Deus para se darem bem. A pandemia está aí consumindo as famílias. E o presidente foi muito estúpido em não perceber seu erro. Em não voltar atrás nas suas condutas. Afinal, parte das pessoas seguem cegamente os seus passos. Se ele fala que é uma gripezinha, se não usa as únicas defesas certas que temos, a máscara e o não aglomerar, essas pessoas se refletem no seu espelho. Em dezembro quando começaram as vendas de vacinas já era para ter ido às compras e seria um novo salvador da pátria, mas preferiu ficar de braços cruzados, fazendo briguinhas políticas com os adversários a assumir o comando do navio chamado Brasil, como um chefe da nação e cumprir assim as obrigações com seu povo.

Do povo não espero mais nada! Sem educação e sem cultura se aproveitam da guerra invisível contra o vírus para aumentarem os preços dos insumos, para ficarem mais vagabundos, para aglomerarem aumentando a contaminação, a ocupação dos leitos dos hospitais sucateados nos últimos 15 anos, e por fim, o número de mortes. 

A pandemia nos trouxe muitas lições, todas aprendidas por quem já aprende tudo facilmente. A solidariedade, a doação, a entrega dos profissionais médicos e de enfermagem. A luta do povo trabalhador que faz o possível e o impossível para sobreviver. Infelizmente,  também provou mais uma vez que os que parasitam e vegetam preferem a esmola do governo a trabalharem honestamente. Que o egoísmo e os interesses próprios sempre prevalecem. Que os políticos apenas usam o povo como gado, como escudo e como bucha de canhão. Empregos para os amigos e abandono dos parceiros. Essa é a realidade! Que me perdoem a amargura. Vida que segue! Porque quem ama o que faz, quem respeita as leis, quem não mendiga cargos de confiança, quem tem uma profissão digna e uma família amorosa, esses sobreviverão.

De resto, o que vivi nos anos 80 e o que percebo hoje é que todos são farinha do mesmo saco! Lula e a quadrilha do PT nunca mais! E que até 2022 surja uma terceira via, alguém que honre o cargo de chefe de estado, que seja honesto, coerente e civilizado.

Para finalizar, apenas um pedido a vocês.  Coloquem amor no que fazem, não importa o trabalho. Ele nos trás dignidade sempre! E se puderem, protejam suas famílias.  Só assim Deus estará por nós!

E viva la vida!

domingo, 28 de março de 2021

VOCÊ











 Você chegou como quem chega do nada

na bagagem um sorriso 

e o bater de um coração

transformou o inverno em primavera

brotou a flor antecipando meu verão.

Você chegou como luar pela janela

rompeu frestas, fez-se a luz

onde havia a escuridão.

Fez da lenha mais molhada

fogo intenso que deságua ´

como lavas

em um vulcão em erupção.

Por orar todas as noites por ti

é que vi meus sentimentos

atropelarem  minha razão 

essa luz que vem de ti 

é muito mais do que pedi

por isso agradeço em oração.

Você chegou tão menina, tão mulher

trouxe junto a alegria ao meu porto solidão

essa âncora que ninguém acredita

mas se sente quando afunda dentro do coração

Por acreditar tanto em ti

já me encontrei e me perdi

nesses alto mares de paixão

essa dor que doía em mim

teve início, meio e fim

e agora posso compor 
tua canção.


quarta-feira, 3 de março de 2021

ARRANCHADO














Quando somos crianças achamos que nosso pai é um super-herói. Quando crescemos, descobrimos que realmente o é.  Das promessas do meu pai para nós só existiu uma. "Todos terão direito a estudar! O restante depende de cada um de vocês!" E foi assim....

Estudei meu primeiro e segundo graus na época, no colégio Nossa Senhora Auxiliadora, sempre com o esforço dos meus pais. Todo início de ano minha mãe batia à porta de um deputado do município, para conseguir uma "bolsa de estudos". Conseguia metade da mensalidade, e a outra ficava por conta do meu pai. Assim foi quando entrei em Medicina em uma universidade particular. Não sabia como ia fazer para pagar a mensalidade, estada, etc. Conseguimos o disputado "crédito educativo". Da família, vinha o apoio necessário, mais dinheiro para o aluguel, que no início eu dividia com mais 2 em uma quitinete, e vinte tíquetes restaurante que o pai tirava do orçamento da família e me mandava para eu passar o mês. 

Arranchado em Passo Fundo, recebia de vez em quando remessas de charque, erva-mate e rapadura, que adoçava a vida do bageense, e  que mais tarde ficaria escravo da diabetes. Cada presente, carta, telefonema nas filas intermináveis da crt, serviam para matar a saudade e revigorar o ânimo para os dias em que a vida se resumia em anatomia, fisiologia e bioquímica.

"Nessa colmeia povoeira, onde fiz arranchamento, amarro fletes de sonhos em palanques de cimento. Vou bebendo nostalgias, de sanga, pitanga e vento, sesmarias de saudade não cabem no apartamento". 

Os dias passavam rápidos. Entre as aulas e provas, tinha ainda que fazer comida a cada dois dias; outro colega cozinhava e dividia comigo as despesas, e ainda tinha que encarar o tanque para lavar as roupas, incluindo as brancas e passá-las da melhor maneira possível. Dormia em um bicama e os outros dois em um beliche. Claro que havia as festas no prédio, nos fins de semana de inverno,em que dividíamos nossas tristezas e alegrias, garrafões de vinho "Quinta do Monte" e " Pérgola", comendo sopa e strogonoff de carne e frango e ouvindo boa música.

Na faculdade conheci a mãe da minha filha. E apesar de agradecer a Deus por tê-la, minha filha, chegou em um momento delicado. A gravidez não foi planejada e para dois acadêmicos a coisa foi ainda mais enroscada. Em dezembro fomos para a praia e lá meus pais, mirando a barriga enorme da namorada descobriram que ela estava grávida. Do choque à primeira conversa e a preocupação com a faculdade. 

"Quando a lua se debruça no arranha-céu dos viveiros onde arranchei minha alma no meu exílio povoeiro. Coiceia dentro do peito, um coração caborteiro, me sinto um pássaro preso na angústia do cativeiro..."

Mais uma vez meu super-herói sem capa e sem nenhum lastro ou herança de família, vendeu o primeiro carro zero km que havia comprado, uma parati branca, e comprou um apartamento  na cidade para eu morar com a namorada que por conta,
da circunstância e de minha educação, viraria minha esposa durante um rápido período. O mundo virou de cabeça para baixo, e entre fraldas de tecido sujas, louças apinhadas na pia, almoços e jantas preparados pela gente, durante um ano consegui estudar e até tirar boas notas. Infelizmente nenhum amor dura quando não há persistência, tolerância e reciprocidade. A formatura da minha parceira que deveria ser um motivo para aliviar meu pai acabou sendo um dos motivos para a separação definitiva. Minha filha foi morar com a mãe e com a avó que não era pessoa de bom coração e me fez passar por maus bocados durante um bom tempo. Meu pai, por obra do destino, mudou-se para Passo Fundo e eu acabei me arranchando  com eles novamente. Na época ele gostava muito de uma música chamada "Arranchado" que o César Passarinho cantava e me disse, "essa é tua música:" "Vou embora pra querência, pra arranchar no meu chão. Amanhã eu ponho anúncio nos grandes classificados. Vende-se um apartamento no coração da cidade, a preço de ocasião, por motivo de saudade." E o apartamento voltou a seu legítimo dono e ele vendeu para acelerar a construção da sua casa nova no bairro vergueiro. 

Meu super-herói partiu cedo e me deixou órfão de seu conselho e conhecimento. Quando ouço essa música e tantas outras de que ele gostava, me emociono e viajo até a infância, onde tudo começou. Sem ele, com certeza, as criptonitas, os vilões, as onças e sucuris, eu jamais poderia ter enfrentado. 


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

DA VIDA, DE AMORES E FLORES!



 











Na minha cidade tem amigos, amigos

que não se escondem dos perigos

e quando são chamados, amados

vem de todos os lugares, cidades lunares

escondidos em suas ruas, planetas, 

redes sociais são lunetas que mostram

suas vidas, suas mortes, suas dores,

o que fazem, o que comem, seus amores.

Em algum lugar eu tenho gente, temente,

que um dia vão brotar de suas sementes

toda tristeza irá embora, na hora 

explodindo o mundo em flores, em cores.

Seus sorrisos são cativos, nativos,

mas serão todos ouvidos, cifrados, gargalhados

nos encontros, nos abraços, nos braços

que já estão tão emperrados

por não serem mais usados.

Em algum lugar eu tenho história, história 

escondida em algum livro guardado

na estante da memória, memória

com imagens e palavras faladas

que me contam do meu ninho, caminho, 

de pai, de mãe e avós, de mulheres respeitadas

de canções nunca gravadas, cantadas,

com as vozes dos meus erros e acertos, apertos, 

que na vida eu passei, sorri , chorei

para um dia te ancorar amor, amor puro,

dos poetas e das musas, das sereias e medusas,

dos mares nunca navegados, 

e encontrar a paz sonhada.

nos teus braços meu  porto seguro.


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

OS PRIMEIROS ANOS DE ESCOLA

 














Em 1970, com cinco anos de idade, entrei na escola municipal Martinho Saraiva, que ficava na vila industrial. Apesar de humilde e de ter turmas apenas até a quarta série, a diretora e as professoras tinham boa formação e eram esmeradas, dando-me uma boa base para os anos seguintes que faria no colégio Auxiliadora. Pegávamos um ônibus as 7h da manhã  e voltávamos as 11:30h. Íamos e voltávamos a maioria das vezes na companhia das professoras. 
Na rádio do ônibus, o padre Fredolin Brauner gritava, "te levanta vagabundo! Lago que tem piranha, jacaré nada de costas e macaco bebe água de canudinho!". As músicas gauchescas nos acompanhavam na viagem. Uma que ficou na minha memória se chamava "tristeza, vá embora!", do falecido José Mendes. 
Minha primeira professora foi minha tia Marlene, mãe do meu primo Marcos Vinícius, que além de ser da minha idade, sempre foi um irmão e amigo. Disputávamos sempre o prêmio de melhor aluno da classe.
Nas correrias da escola fraturei meu primeiro dente e descobri que teria que usar óculos. Lembro com carinho das outras mestras, Tânia, Albina e Maria Antonieta. Fiz bons amigos, mas a lembrança mais doce que trago comigo é a da cozinheira da escola, dona Cantalícia, que fazia uma sopa maravilhosa, além de deliciosos bolinhos que acompanhavam o chocolate quente servidos em canecas esmaltadas e que nos aqueciam no inverno rigoroso de Bagé.
Em um dia de sol de 1972,iríamos receber a visita do ilustre bageense, presidente da república,
Emílio Garrastazu Médici em nossa escola. A vila era formada de casinhas baixinhas e geminadas,  habitadas por trabalhadores e suas famílias, onde o única indústria era um frigorífico chamado, na época, de Cicade. 
Foram muitos os dias que envolveram os preparativos para a recepção. Uniforme branco e azul-marinho engomado, bandeirinha na mão e uma expectativa enorme para receber o presidente do Brasil. Ninguém falava em ditadura, muito menos que as pessoas estavam desaparecendo de suas casas sem deixar vestígios. Frases como "Brasil! Ame- o ou deixe-o!" e "Ninguém segura esse país!" entre outras, serviam de estimulo para acreditar que tudo estava bem. E o Brasil tinha ganho a copa do mundo de futebol há pouco. Só tínhamos que acreditar no " Prá frente Brasil!". 

Naquele dia, um sol de rachar, e eu  com 7 para 8 anos, em formação como toda a escola aguardando o homem que não chegava. Apertei a mão daquele senhor educado e de sorriso simpático, que parecia um avô de todos. Como resultado da espera eterna no sol, tive febre de 38 graus, graças a  uma amigdalite que me acompanharia até mais tarde, quando meus pais deram um basta e eu fui submetido a uma cirurgia para retirada de amígdalas. Apesar de doloridos dias após a cirurgia, a felicidade voltou. Dei adeus às amígdalas e à benzetacil que pelo menos uma vez ao mês tirava meu sorriso do rosto.

Os anos passaram mas a escola continua lá, no mesmo lugar ao lado de uma igrejinha. 

Vez por outra, ainda ouço os versos de José Mendes. " Tristeza, porque você não vai embora e manda essa saudade te acompanhar. Tristeza porque você não vai agora e manda a felicidade em teu lugar!"


domingo, 14 de fevereiro de 2021

A CASA DA BISA!

















Durante a infância e adolescência, sempre moramos,  a pelo menos 5 km da cidade. Meu pai trabalhava em um a distribuidora de petróleo, por isso a distância. Na lembrança de menino, que sem entender nada assistiu a subida do homem à lua em uma tv preto e branco, na casa de minha bisavó Joana, guardo memórias que o tempo nunca apaga, por mais que as datas se misturem um pouco. 
Nossa bisa era quase vizinha, porque também morava na avenida Visconde Ribeiro de Magalhães, em frente ao prado, ou associação rural de Bagé, famosa por suas corridas de cavalo e pelas expo-feiras na época. Lá ficamos hospedados durante um tempo devido a uma reforma na casa em que morávamos.
Havia uma grande figueira atrás da casa, um pequeno açude nos fundos com um frondosa árvore, onde íamos brincar e em datas festivas eram realizados os almoços sempre com churrasco feito pelo meu pai.
O açude mais tarde foi aterrado tirando um pouco da beleza do lugar. A figueira deu lugar a uma casa de madeira onde morava uma filha da bisa, com seus dois filhos. Grandes amigos que tive, o Laco e o Nego. Eram gêmeos mas totalmente diferentes no fenótipo e nas atitudes. Um era louro, preguiçoso e sonhador, o outro moreno, realista e trabalhador. 
Muitos campeonatos de futebol de botão foram realizados com eles e muitas peladas nos bretes que ficavam atrás do terreno da vó Joana, como era chamada. Além, dos meninos, com a minha vó morava uma prima do meu pai, além de uns tios que eram muito boa gente. 
Aos sábados à tarde ia, na pré-adolescência, ajudar o tio Adão, como era chamado, a preparar a missa da capelinha da vila. Geralmente eu ficava com uma das leituras. Tempos bons em que acreditávamos piamente que os padres eram os verdadeiros representantes de Deus na terra.
Minha bisa era uma querida e ficava muito feliz com as visitas e mais ainda com os doces em caixas e as compotas que ganhava de presente. Já velhinha, corcundinha e com pouca visão sempre acabava ganhando os jogos de pif, do meu avô Sadi, que saía da mesa sempre xingando indignado sem saber como aquela idosa que mal conseguia arrumar as cartas na mão sempre saía vitoriosa.
Lá tivemos bons momentos e lá lembro de um castigo homérico. Eu e meu irmão Claudio brigamos por algum motivo banal e acabamos amarrados em uma mesa, de joelhos no milho, até fazer as pazes. 
Eram outros tempos, mas sobrevivemos e aprendemos a ser bons amigos e filhos. 
Depois da casa reformada, íamos quase todos os dias no final de tarde visitar a bisa, a pé. Na volta, cansados, disputávamos quem vinha "montado" no pescoço do pai. 
O mundo parecia ser tão grande e tão melhor, e o mais importante, era nosso!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

SOLIDARIEDADE! "O SOLIDÁRIO NÃO QUER SOLIDÃO!" (MILTON NASCIMENTO)
























 No km 5 da avenida Visconde Ribeiro de Magalhães, passei a maior parte da minha infância. Em 1973, se não me falha a memória, enquanto Raul Seixas deveria estar alegre por comprar um corcel 73, a avenida ainda não era asfaltada. Do lado da casa em que morava passava um córrego onde cada vez que chovia mais forte, transbordava, carregando além de galhos de árvores e lixo, os sonhos de muita gente. 

Nossa casa ficava num local um pouco mais alto e não corria riscos de enchente. Lembro que as casas dos  vizinhos do outro lado da rua eram baixinhas, como a maioria na fronteira, inundavam facilmente e aumentavam o sofrimento do povo bom e trabalhador que ali residia.

Na frente morava um casal de idosos com sua filha. O homem curvado pela idade, e também pelo exausto trabalho desfilava um carrinho de madeira carregado de hortaliças, fruto de sua horta muito bem cuidada e que, nesses tempos de chuva intensa, perdia quase a totalidade da produção para a  força das águas.

Ao lado vivia uma família de evangélicos, formada por uma senhora que vivia falando mal dos outros e rezava muito, e suas duas filhas, pessoas maravilhosas que de vez em quando vinham ajudar a cuidar da turma.

Não foi uma ou duas madrugadas que vi minha casa cheia de gente, fugindo de suas casas alagadas, molhados na roupa e nos olhos. E minha mãe os recebia com carinho, entre cafés e cuias de chimarrão para aquecê-los e dizendo palavras de consolo que o dia seguinte seria melhor. Ali, aguardavam o clarear do dia, ou quando passasse a tempestade para contabilizarem os danos. Meus pais nunca pediram nada em troca, mas no seu coração ganharam o amor e o respeito daquelas pessoas. Apesar de nossa casa ser muito modesta, quarto, sala, cozinha, sala de jantar(onde ficava nosso beliche) e banheiro, lembro bem dessas noites "em claro" em que nossa sala se enchia de tristeza e ao mesmo tempo esperança. 

Minha mãe, como boa católica, queimava um ramo bento e orava para Santa Rita de Cássia para que logo o tempo acalmasse. Para meu irmão mais novo a tormenta se tornava uma festa já que a casa ficava cheia. 

Para mim, no alto dos meus oito anos, adorava ouvir a música da chuva caindo no zinco que cobria a casa, e o meu sentimento era de puro orgulho e amor infinito por  meus pais. Naquela época descobri o significado da palavra solidariedade em toda sua plenitude.

No livro de escola, " Nossa Terra, Nossa Gente, descobri Casimiro de Abreu e mais tarde concordaria com ele. " Oh! que saudades que eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais! ...." 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

VELHA INFÂNCIA

















Era uma vez em  uma cidade do interior
um menino que vivia feliz
entre primos e irmãos.
A vida era uma brincadeira
heróis e bandidos eram iguais,
como iguais eram as pessoas
e os caminhos eram livres da maldade.
As histórias que ele ouvia
eram retiradas da caixa de livros
das memórias dos avós,
contadas à beira do fogão à lenha.
Aqueles eram dias onde o inverno era quente
e o verão tinha o frescor dos plátanos.
O perfume era de café e  pão caseiro
e cabia o mundo inteiro em uma mesa tão pequena
"Lá vai o menino fazer chamarisco!" ,gritava minha avó
bola embaixo do braço, feliz ia para o campinho
corria a tarde inteira sem cansaço, na volta banho 
jantar e um grande abraço!
E os dias que não passavam, voavam despercebidos
Ah! Saudades de minha família
que parecia tão grande e hoje se faz minguada,
dos tombos de bicicleta  a pedalar sem as mãos
da vó, que me ensinou as primeiras letras e a tabuada.
Saudades da  esperança de esperar o natal,
do cheiro de terra molhada,
da alegria do mês de agosto,
dos dias em que o presente eram os pais presentes
Dias de jogar  bolinha de gude
de jogar botão, e de leitura,
da pandorga no céu limpo
da pescaria no açude e  de fartura
de primos e primas sorrindo
porque criança ri à toa
e o presente estava ali e o futuro era um nada.
Nunca havia solidão, apenas solidariedade
dos meus pais com os vizinhos
quando as cheias do inverno
invadiam as casinhas pequeninas,
causando incerteza e dor.
Lá em casa tinha abrigo apesar da simplicidade
era lá que tinha  amigo, era lá que tinha amor
velha infância que se foi 
só não morre na memória
nem nos livros de história
que escrevi no pensamento
" Era uma vez um gatinho xadrez..."
quer que eu te conte outra vez?
então passa para o outro lado
e assim meu pai por vezes tão cansado
brincava conosco no final do dia
e entre gargalhadas, eu dizia:
pai! Conta mais uma vez!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

1970 - A COPA DAS GALINHAS
















 




Durante a copa do mundo de 1970 eu ainda não tinha feito 6 anos, mas em minha memória de menino ficaram gravados alguns fatos e imagens que hoje se misturam com as tantas vezes que assistimos o "escrete canarinho" e suas jogadas que encantaram o mundo.

Meus pais tinham uma televisão telefunken, preto e branco, de 20 polegadas, coisa fina na época. Nela foram assistidos todos os jogos ao vivo, direto do estádio de Guadalajara, em Jalisco, no México. Não contente, meu pai ouvia a narração em um potente rádio, cheio de velas que iluminavam a parte de trás do mesmo.

Na noite da final da copa em que a gloriosa seleção brasileira de Pelé, Tostão e Rivelino bateram à Itália, a festa estava preparada. Minha tia Lena, irmã de minha mãe estava lá aumentando a torcida pelo Brasil. Batata doce cozida era o cardápio do jogo. A bebida, uísque, provavelmente um Drurys.  O resultado foi uma festa dentro e fora do campo, com direito a um trago estupendo e ressaca certa no dia seguinte.

Mas, nem tudo foram flores. Um episódio trágico-cômico estragou a alegria deles.  Faltou água em casa e e eles tiveram que ir até um poço que ficava uns 700 metros de distância, um se segurando no outro para não caírem, e ligarem o motor para encher a caixa d'água. Quando voltaram perceberam que a porta do galinheiro estava aberta.

Durante o jogo, os meliantes de plantão, roubaram as 54 galinhas do galinheiro de casa, deixando apenas uma única com a pata quebrada.

Após o episódio, minha mãe chorou copiosamente. Meu pai, sempre espirituoso, perguntou a ela se a vitória da seleção era motivo para chorar. Ela, totalmente ébria, em soluços, rebateu imediatamente:  "
Não choro pelo campeonato, mas sim pelas minhas galinhas!" Minha mãe nunca mais criou galináceos e a família ficou pelo menos duas décadas sem comemorar outro título mundial. 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

VERÃO TODO DIA













Nasce o dia, abro os olhos

Ao meu lado azul imensidão

O teu beijo, teu bom dia

O teu corpo lindo, um clarão 

Só assim acorda lindo o dia

Quando teu sorriso rompe a escuridão

e invade o meu ser.

Clareia verão!

Meu mundo se prepara pra a invasão

É sempre calor quando se dorme 

e acorda à sombra de um vulcão.

Nasce a vida simplesmente

Quando a rosa se abre em botão

Teu abraço, minha rocha

Sentimento que é pura emoção

Meu exército te invade

Tua cidade é pura explosão.

Clareia paixão! 

Minha cabeça tonta perde a razão

É sempre verão!

Quando se dorme e acorda

à sombra de um vulcão!



segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

ADEUS ANO PASSADO!

 Que bom que 2020 acabou! Foi um ano de muito trabalho e de muito amor, mas, principalmente de muitas perdas. Perdemos amigos, colegas de trabalho, parentes de amigos e terminei o ano perdendo minha cunhada Maria. Mais que esposa de meu irmão, uma daquelas amigas que preservamos do final da infância e início da adolescência e que foi cedo demais, deixando os filhos e uma saudade sem fim.

Nessa pandemia com um vírus invisível apenas a morte se torna visível no corpo das pessoas que amamos e nas lágrimas que derramamos. No início imaginávamos que iria haver uma mudança na consciência e no coração das pessoas. Mero engano! Tratamos de agir como brasileiros que somos. Começamos aumentando o preço do álcool, dos equipamentos de proteção individual, dos respiradores e novamente superfaturamos a construção de hospitais que nunca funcionaram como devia. Politizaram, primeiro as possíveis drogas para o tratamento da doença e continuamos politizando as vacinas e desaparecendo com o oxigênio necessário pelos pacientes pela desorganização total dos hospitais e dos governos.

Sofremos derrotas políticas sem uma explicação lógica e comemoramos vitórias tranquilas avalizadas pela incompetência dos governantes.

Enfrentamos o covid com a cara e a coragem, nunca fechando a clínica, sempre nos precavendo e nunca abrindo mão do melhor atendimento de nossos pacientes.

Amamos muito mais do que odiamos, se é que tivemos tempo para odiar. Cantamos pouco, mas lemos muito e descobrimos que ler não interessa muito à população em geral que preferiu na sua ignorância e no seu vocabulário pobre e cheio de erros dar sua opinião nas redes sociais, concordando ou discordando mesmo quando eram notícias falsas.

Esperamos que pelo menos na nossa casa, que é nosso município haja uma transformação total, estimulando o desenvolvimento do ser humano, incentivando a educação, e, principalmente valorizando e premiando quem realmente exerce com dignidade sua profissão. 

Plagiando o poeta e músico Belchior, " Tenho sangrado demais, tenho chorado prá cachorro. Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro!"