sábado, 15 de maio de 2021

MEMÓRIAS DO AUXILIADORA - O INÍCIO











Quando passei para a quinta série fui obrigado a abandonar a segurança do meu grupo escolar. Martinho Saraiva, que ficava na Vila Industrial, a deliciosa sopa que dona Cantalícia fazia e meus primeiros colegas. A escola não tinha segundo grau e eu precisava ir adiante na formação. Com o esforço hercúleo dos meus pais, e com a frase do meu pai que guardei na minha gaveta da vida:  " a maior herança que um pai pode deixar para seus filhos é a educação!", entrei no colégio Nossa Senhora Auxiliadora, que era particular, e segundo muitos, a melhor escola que tinha na cidade. Meu pai havia sido interno lá e só tinha boas recordações.

O começo foi muito difícil. Minha timidez e a distância do colégio atrapalharam um bocado. Não conseguia participar das aulas de educação física, por exemplo, pois não tínhamos transporte que fechasse com os horários. Então, uma vez por semana ia para a biblioteca fazer pesquisa sobre os mais diversos esportes para abonar as faltas. Mesmo assim nunca abri mão do futebol, vôlei ou basquete que tinha antes das aulas e no seu intervalo. Quando perdíamos o último ônibus por ficar jogando, tínhamos que voltar até o km 5 da cidade a pé, Nossa casa ficava no terminal da Ipiranga, onde meu pai trabalhava.

A timidez sempre limitou meus primeiros passos. Mesmo tendo passado em uma eliminatória em sala de aula para cantar no coral da escola, não fui no dia combinado perdendo a chance de fazer algo que eu já amava que era cantar. Joguei damas em um campeonato organizado pelo clube do Padre Adolfo dos Anjos, que também era professor de matemática. Apesar de ter ganho do segundo colocado e empatado com o primeiro, desisti antes das finais, para jogar bola antes das aulas e no recreio. 

Em uma aula de Moral e Cívica, o professor Guido de Moraes, colocou toda a turma sentada em uma roda e questionou sobre nossas futuras profissões. Para delírio e gargalhadas da turma falei que queria ser médico ou padre. Meu futuro estava escrito! Seria médico. Na época eu achava que todo o padre era santo, o que logo nos anos a seguir me mostraria o contrário. A Medicina seria meu caminho e a pediatria já era uma opção. Eu tinha o melhor pediatra do mundo, Dr. Mário Mansur.

Na escola, havia um teatro antigo. Lá tínhamos as aulas de moral e civismo e fazíamos, na grande maioria, teatro da pior qualidade. Um dia descobri a poesia e comecei minha carreira solo fazendo declamações. Tremia mais que vara verde no palco e terminava as apresentações com a colinha de papel na mão esquerda, totalmente desmanchado pelo suor. Com o tempo aprendi a olhar para o infinito na declamação e a imaginar que era apenas eu ali. O palco virou meu amigo e me deu a experiência de falar em público e no futuro, me apresentar nas festas beneficentes com meus amigos músicos.

Com o passar dos anos fiz bons colegas e excelentes amigos. Um deles, Manoel Ernani, estudioso demais e que hoje é Psiquiatra em Porto Alegre. Era colega de aula e de trabalhos. Lembro ainda do Totona e seu irmão Marrota, apelidos de dois dos Bettervides que foram meus amigos do peito. Tinha também o Flávio, Gallo, Sílvio, e o Arturo que na época metia medo em todos .Graças ao Sílvio que acabei encontrando anos mais tarde em uma visita a Aceguá, fui incluido no grupo de bageenses  do whatsap e  convivo pelas redes sociais e sempre que posso ir a Bagé,  encontro alguns deles e falamos dos bons tempos de Auxiliadora.

Até o final do segundo grau foi uma jornada longa, sempre me equilibrando em cima das notas, que na caderneta escolar pareciam um grenal, notas azuis e vermelhas. Só que as vermelhas não eram do bem. Eram baixas em matemática, depois em Física, e altas em Biologia, História e Literatura. Não sei quando descobri a leitura, mas me tornei um rato de biblioteca, com fichas na escola e nas bibliotecas pública e do Sesi, lendo todos os clássicos que me caíam na mão, especialmente na literatura dos períodos romântico e realista brasileiros. Se hoje sou um defensor da leitura  agradeço a meus pais que me incentivaram a ler, me dando alguns livros de presente,  e a meu avô Gringo que não dispensou um bom livro e leu até o fim da vida.

Minha timidez continuou a me acompanhar, então comecei a escrever. Eram poemas e contos que se perderam no meio de tantas mudanças, mas que também mudaram minha percepção de mundo. Era um sonhador. Sonhava com o amor de uma menina, com a eternidade dos meus pais e avós e que todas essas amizades permaneceriam para sempre.

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