No primeiro ano de faculdade, em Passo Fundo, morei com mais dois caras em uma quitinete na rua uruguai. Morávamos no sexto andar de um prédio que de longe parecia um varal gigante, já que em todas as janelas ficavam roupas dependuradas para secar ao sol ou ao vento. Eu, Norberto, que fazia Contábeis à noite e sonhava fazer Odontologia, e Rubens, que trabalhava na receita federal.
Conheci Rubens através de um colega e amigo do cursinho, Miguel, outro que almejava odonto e mais tarde foi aprovado no vestibular. Norberto já morava no 603 e era dono de um fogão quatro bocas, uma geladeira do século passado, um beliche, uma pequena mesa de madeira e uma tv preto e branco de ínfimas polegadas.
Conto essa história também para servir de motivação para outros jovens que saem de casa cheio de sonhos e muitas vezes se deparam com dificuldades e acabam desistindo. Encontramos na caminhada pessoas de todas as origens, boas e más, mãos abertas e muquiranas, sonhadores e realistas e até derrotistas que nublam os nossos melhores dias de sol.
Dividir uma quitinete com mais duas pessoas não foi uma aventura fácil, assim como nunca foi fácil a faculdade que escolhi para fazer. Norberto ia para a casa dos seus pais quase todos os finais de semana, pois morava em uma cidade relativamente próxima. Na segunda, chegava com parte da comida pronta para a semana inteira, tudo em potes e vidros de nescafé. Embora, sempre educado e solícito e me oferecesse alguma coisa para degustar, a comida era dele. Eu e Rubens nos revezávamos na cozinha, Dia um, dia outro. Coisas rápidas mas que ficavam boas. E a fome sempre foi nossa melhor cozinheira. A dificuldade maior era quando tínhamos que dividir a minúscula cozinha que ficava na entrada do apartamento. Norberto aquecendo seus alimentos e eu tentando fazer os nossos. Quando o Rubens resolvia ficar no apê no domingo, o almoço era especial: arroz, maionese feita por mim e uma coxa completa de frango para cada um.
Rubens dormia na parte de baixo do beliche, Norberto na parte de cima e eu em um bicama comprado pelos meus pais, que era nosso sofá de dia e minha cama à noite.
Disputávamos diariamente os baldes, dois, para deixar de molho as roupas. As minhas roupas brancas eram motivo de brigas porque necessitavam de mais tempo de alvejante. Lavava e passava minhas roupas e até o pequeno varal era disputado pela gente.
Para estudar, e como tínhamos apenas uma mesa, fiz uma mesa em cima do tanque de lavar roupas. Era um cubículo, mas lá tinha silêncio para poder me concentrar nos estudos, dividindo os períodos com a lavagem das roupas.
Sempre nos demos bem. O único stress que tivemos foi quando o Norberto resolveu cobrar o aluguel do fogão e da geladeira. Contei para o meu pai, que muito espirituoso sugeriu ao Norberto que levasse embora sua geladeira e fogão. Iria comprá-los e ele não precisaria pagar o aluguel. Aquilo "tocou" o coração do italiano que acabou mudando de ideia. Outro colega meu, pobre e negro falou que era meio escravizado por outro colega da mesma turma para dividir o apartamento com ele. Tinha que cuidar da limpeza do mesmo todos os dias e ainda com aula, em dois a três turnos e estudar.
Conhecia todos os moradores do prédio e quase todos os finais de semana havia jantar em um apartamento de um ou outro. Galinhada, carreteiro e às vezes um estrogonofe de carne acompanhado pelo vinho "Quinta do Monte", garrafão de cinco litros. Muitas vezes almocei com outros colegas, que como eu, viviam com muito pouco, mas dividiam o que tinham com outras pessoas. Antonio, hoje, médico em Mandaguari, Delmar, anestesista em Passo Fundo, Fernando, neurofisiologista e Alexandre, clínico, irmãos que levo para a vida toda.
Durante a formação fiz plantões no pa, aprendendo o básico. No terceiro fui fazer plantões no interior durante catorze dias. Após a chegada do meu primeiro diploma, minha filha que amo muito, comecei a trabalhar de segunda à quinta, à noite no pronto socorro de fraturas. Foi meu primeiro emprego com carteira assinada. Aprendi a fazer gesso, raio-x, além de ser o faxineiro. E na residência, além dos plantões a cada quatro dias, fazia pelo menos dois plantões de setenta e duas horas nos fins de semana na cidade de Erechim.
A vida estudantil foi difícil, com filho e tudo mais, mas foi uma das etapas mais felizes da minha vida. Ter uma família boa e que te apoia, amigos que viram irmãos, aproveitar as chances que a vida te dá acompanhando bons professores, aprendendo a ter limites, fazer só o que sabe e não inventar milagres, boa vontade de encarar os desafios que a profissão vai te trazer, ser ético, são alguns dos ensinamentos que cada pessoa que cruzou o meu caminho me trouxe.
Hoje valorizo cada passo que dei, cada um que cruzou o meu caminho e aprendi a amar. Pequenas coisas que me fizeram o homem e profissional que sou.

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