Estudei meu primeiro e segundo graus na época, no colégio Nossa Senhora Auxiliadora, sempre com o esforço dos meus pais. Todo início de ano minha mãe batia à porta de um deputado do município, para conseguir uma "bolsa de estudos". Conseguia metade da mensalidade, e a outra ficava por conta do meu pai. Assim foi quando entrei em Medicina em uma universidade particular. Não sabia como ia fazer para pagar a mensalidade, estada, etc. Conseguimos o disputado "crédito educativo". Da família, vinha o apoio necessário, mais dinheiro para o aluguel, que no início eu dividia com mais 2 em uma quitinete, e vinte tíquetes restaurante que o pai tirava do orçamento da família e me mandava para eu passar o mês.
Arranchado em Passo Fundo, recebia de vez em quando remessas de charque, erva-mate e rapadura, que adoçava a vida do bageense, e que mais tarde ficaria escravo da diabetes. Cada presente, carta, telefonema nas filas intermináveis da crt, serviam para matar a saudade e revigorar o ânimo para os dias em que a vida se resumia em anatomia, fisiologia e bioquímica.
"Nessa colmeia povoeira, onde fiz arranchamento, amarro fletes de sonhos em palanques de cimento. Vou bebendo nostalgias, de sanga, pitanga e vento, sesmarias de saudade não cabem no apartamento".
Os dias passavam rápidos. Entre as aulas e provas, tinha ainda que fazer comida a cada dois dias; outro colega cozinhava e dividia comigo as despesas, e ainda tinha que encarar o tanque para lavar as roupas, incluindo as brancas e passá-las da melhor maneira possível. Dormia em um bicama e os outros dois em um beliche. Claro que havia as festas no prédio, nos fins de semana de inverno,em que dividíamos nossas tristezas e alegrias, garrafões de vinho "Quinta do Monte" e " Pérgola", comendo sopa e strogonoff de carne e frango e ouvindo boa música.
Na faculdade conheci a mãe da minha filha. E apesar de agradecer a Deus por tê-la, minha filha, chegou em um momento delicado. A gravidez não foi planejada e para dois acadêmicos a coisa foi ainda mais enroscada. Em dezembro fomos para a praia e lá meus pais, mirando a barriga enorme da namorada descobriram que ela estava grávida. Do choque à primeira conversa e a preocupação com a faculdade.
"Quando a lua se debruça no arranha-céu dos viveiros onde arranchei minha alma no meu exílio povoeiro. Coiceia dentro do peito, um coração caborteiro, me sinto um pássaro preso na angústia do cativeiro..."
Mais uma vez meu super-herói sem capa e sem nenhum lastro ou herança de família, vendeu o primeiro carro zero km que havia comprado, uma parati branca, e comprou um apartamento na cidade para eu morar com a namorada que por conta,
da circunstância e de minha educação, viraria minha esposa durante um rápido período. O mundo virou de cabeça para baixo, e entre fraldas de tecido sujas, louças apinhadas na pia, almoços e jantas preparados pela gente, durante um ano consegui estudar e até tirar boas notas. Infelizmente nenhum amor dura quando não há persistência, tolerância e reciprocidade. A formatura da minha parceira que deveria ser um motivo para aliviar meu pai acabou sendo um dos motivos para a separação definitiva. Minha filha foi morar com a mãe e com a avó que não era pessoa de bom coração e me fez passar por maus bocados durante um bom tempo. Meu pai, por obra do destino, mudou-se para Passo Fundo e eu acabei me arranchando com eles novamente. Na época ele gostava muito de uma música chamada "Arranchado" que o César Passarinho cantava e me disse, "essa é tua música:" "Vou embora pra querência, pra arranchar no meu chão. Amanhã eu ponho anúncio nos grandes classificados. Vende-se um apartamento no coração da cidade, a preço de ocasião, por motivo de saudade." E o apartamento voltou a seu legítimo dono e ele vendeu para acelerar a construção da sua casa nova no bairro vergueiro.
Meu super-herói partiu cedo e me deixou órfão de seu conselho e conhecimento. Quando ouço essa música e tantas outras de que ele gostava, me emociono e viajo até a infância, onde tudo começou. Sem ele, com certeza, as criptonitas, os vilões, as onças e sucuris, eu jamais poderia ter enfrentado.

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