segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

OS PRIMEIROS ANOS DE ESCOLA

 














Em 1970, com cinco anos de idade, entrei na escola municipal Martinho Saraiva, que ficava na vila industrial. Apesar de humilde e de ter turmas apenas até a quarta série, a diretora e as professoras tinham boa formação e eram esmeradas, dando-me uma boa base para os anos seguintes que faria no colégio Auxiliadora. Pegávamos um ônibus as 7h da manhã  e voltávamos as 11:30h. Íamos e voltávamos a maioria das vezes na companhia das professoras. 
Na rádio do ônibus, o padre Fredolin Brauner gritava, "te levanta vagabundo! Lago que tem piranha, jacaré nada de costas e macaco bebe água de canudinho!". As músicas gauchescas nos acompanhavam na viagem. Uma que ficou na minha memória se chamava "tristeza, vá embora!", do falecido José Mendes. 
Minha primeira professora foi minha tia Marlene, mãe do meu primo Marcos Vinícius, que além de ser da minha idade, sempre foi um irmão e amigo. Disputávamos sempre o prêmio de melhor aluno da classe.
Nas correrias da escola fraturei meu primeiro dente e descobri que teria que usar óculos. Lembro com carinho das outras mestras, Tânia, Albina e Maria Antonieta. Fiz bons amigos, mas a lembrança mais doce que trago comigo é a da cozinheira da escola, dona Cantalícia, que fazia uma sopa maravilhosa, além de deliciosos bolinhos que acompanhavam o chocolate quente servidos em canecas esmaltadas e que nos aqueciam no inverno rigoroso de Bagé.
Em um dia de sol de 1972,iríamos receber a visita do ilustre bageense, presidente da república,
Emílio Garrastazu Médici em nossa escola. A vila era formada de casinhas baixinhas e geminadas,  habitadas por trabalhadores e suas famílias, onde o única indústria era um frigorífico chamado, na época, de Cicade. 
Foram muitos os dias que envolveram os preparativos para a recepção. Uniforme branco e azul-marinho engomado, bandeirinha na mão e uma expectativa enorme para receber o presidente do Brasil. Ninguém falava em ditadura, muito menos que as pessoas estavam desaparecendo de suas casas sem deixar vestígios. Frases como "Brasil! Ame- o ou deixe-o!" e "Ninguém segura esse país!" entre outras, serviam de estimulo para acreditar que tudo estava bem. E o Brasil tinha ganho a copa do mundo de futebol há pouco. Só tínhamos que acreditar no " Prá frente Brasil!". 

Naquele dia, um sol de rachar, e eu  com 7 para 8 anos, em formação como toda a escola aguardando o homem que não chegava. Apertei a mão daquele senhor educado e de sorriso simpático, que parecia um avô de todos. Como resultado da espera eterna no sol, tive febre de 38 graus, graças a  uma amigdalite que me acompanharia até mais tarde, quando meus pais deram um basta e eu fui submetido a uma cirurgia para retirada de amígdalas. Apesar de doloridos dias após a cirurgia, a felicidade voltou. Dei adeus às amígdalas e à benzetacil que pelo menos uma vez ao mês tirava meu sorriso do rosto.

Os anos passaram mas a escola continua lá, no mesmo lugar ao lado de uma igrejinha. 

Vez por outra, ainda ouço os versos de José Mendes. " Tristeza, porque você não vai embora e manda essa saudade te acompanhar. Tristeza porque você não vai agora e manda a felicidade em teu lugar!"


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