sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

SOLIDARIEDADE! "O SOLIDÁRIO NÃO QUER SOLIDÃO!" (MILTON NASCIMENTO)
























 No km 5 da avenida Visconde Ribeiro de Magalhães, passei a maior parte da minha infância. Em 1973, se não me falha a memória, enquanto Raul Seixas deveria estar alegre por comprar um corcel 73, a avenida ainda não era asfaltada. Do lado da casa em que morava passava um córrego onde cada vez que chovia mais forte, transbordava, carregando além de galhos de árvores e lixo, os sonhos de muita gente. 

Nossa casa ficava num local um pouco mais alto e não corria riscos de enchente. Lembro que as casas dos  vizinhos do outro lado da rua eram baixinhas, como a maioria na fronteira, inundavam facilmente e aumentavam o sofrimento do povo bom e trabalhador que ali residia.

Na frente morava um casal de idosos com sua filha. O homem curvado pela idade, e também pelo exausto trabalho desfilava um carrinho de madeira carregado de hortaliças, fruto de sua horta muito bem cuidada e que, nesses tempos de chuva intensa, perdia quase a totalidade da produção para a  força das águas.

Ao lado vivia uma família de evangélicos, formada por uma senhora que vivia falando mal dos outros e rezava muito, e suas duas filhas, pessoas maravilhosas que de vez em quando vinham ajudar a cuidar da turma.

Não foi uma ou duas madrugadas que vi minha casa cheia de gente, fugindo de suas casas alagadas, molhados na roupa e nos olhos. E minha mãe os recebia com carinho, entre cafés e cuias de chimarrão para aquecê-los e dizendo palavras de consolo que o dia seguinte seria melhor. Ali, aguardavam o clarear do dia, ou quando passasse a tempestade para contabilizarem os danos. Meus pais nunca pediram nada em troca, mas no seu coração ganharam o amor e o respeito daquelas pessoas. Apesar de nossa casa ser muito modesta, quarto, sala, cozinha, sala de jantar(onde ficava nosso beliche) e banheiro, lembro bem dessas noites "em claro" em que nossa sala se enchia de tristeza e ao mesmo tempo esperança. 

Minha mãe, como boa católica, queimava um ramo bento e orava para Santa Rita de Cássia para que logo o tempo acalmasse. Para meu irmão mais novo a tormenta se tornava uma festa já que a casa ficava cheia. 

Para mim, no alto dos meus oito anos, adorava ouvir a música da chuva caindo no zinco que cobria a casa, e o meu sentimento era de puro orgulho e amor infinito por  meus pais. Naquela época descobri o significado da palavra solidariedade em toda sua plenitude.

No livro de escola, " Nossa Terra, Nossa Gente, descobri Casimiro de Abreu e mais tarde concordaria com ele. " Oh! que saudades que eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais! ...." 

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