Naqueles anos dourados em que a adolescência se aproximava, os hormônios estavam à flor da pele e começavam a mexer com a gurizada. Apesar dos sonhos mais apimentados havia um respeito enorme entre meninos e meninas e alguns namoricos começavam a se desenhar. As trocas de olhares tímidos, as perseguições silenciosas. Talvez estar perto da menina amada era o mais importante na história . Os tempos eram outros e a timidez não era só um problema meu.
Numa manhã de inverno, um colega de nome Jorge, levou para a sala de aula a página de uma revista pornográfica sueca, daquelas que só se via nas revisteiras e que vinha totalmente lacrada. Ou seja, pouca gente já tinha visto algo semelhante. Hoje é comum achar em qualquer site. Basta acessar a internet e você assiste a todo tipo de pornografia, inclusive vídeos de sexo explícito, mas na época não tínhamos acesso a nada disso. Na página da revista, uma mulher praticava sexo oral em um homem. Um outro colega, não lembro o nome, colocou a foto grudada na parede no fundo da sala.
Eis que surge na porta o professor de português e literatura, Osni Uber, o tigrão, já falecido, pegando a todos de surpresa, ou como diz a expressão, "com as calças na mão". Muito espirituoso e de uma inteligência ímpar foi até o fundo da sala, retirou a foto, colocou grudada na lousa e falou: - vamos fazer uma redação sobre isso que está aí!
Após fazer um discurso de reprimenda sobre a falta de vergonha e caráter de quem tinha levado aquilo, de autoafirmação, de hormônios e do quão desrespeitosos fomos com as meninas, ele se arrependeu e pediu que as gurias saíssem. Algumas choravam, e após a saída delas, continuou durante mais um tempo com sua feroz manifestação, ameaçando a turma de punição. Após o sermão começamos a fazer a redação sobre a foto com direito a título e tudo.
Só para lembrar a todos, estudávamos em um colégio salesiano. No dia seguinte, o padre Ervin, diretor da escola foi pedir aos alunos que não divulgassem o ocorrido, que iria manchar a reputação do colégio e tal. A cidade toda já sabia. No resumo da história, Jorge Farah, o aluno que levou a página e o colega que a colocou na parede, foram expulsos. As revistas, após rápida investigação, pertenciam ao pároco que após o trágico acontecimento foi realizar missas em outra paróquia de algum lugar qualquer.
O mundo daria muitas voltas e cada um foi estudar nas mais diversas universidades. Às vezes paro e me pergunto onde andam todos, o que estarão fazendo. Será que ainda tem essas recordações ou elas
se perderam em alguma página do livro da memória? Graças às redes sociais ainda converso com alguns e quase todos os anos encontro parte do grupo da escola. Nesses dias relembramos um pouco do passado, e rimos como se fôssemos aquelas crianças e adolescentes que ficaram eternizados em alguma foto, que viviam o presente a sua maneira e não tinham nenhum medo do futuro porque o futuro era uma interrogação e o presente uma dádiva.




