segunda-feira, 17 de maio de 2021

MEMÓRIAS DO AUXILIADORA - A ESTRANHA REDAÇÃO

 









Naqueles anos dourados em que a adolescência se aproximava, os hormônios estavam à flor da pele e começavam a mexer com a gurizada. Apesar dos sonhos mais apimentados havia um respeito enorme entre meninos e meninas e alguns namoricos começavam a se desenhar. As trocas de olhares tímidos, as perseguições silenciosas. Talvez estar perto da menina amada era o mais importante na história . Os tempos eram outros e a timidez não era só um problema meu.

Numa manhã de inverno, um colega de nome Jorge, levou para a sala de aula a página de uma revista pornográfica sueca, daquelas que só se via nas revisteiras e que vinha totalmente lacrada. Ou seja, pouca gente já tinha visto algo semelhante. Hoje é comum achar em qualquer site. Basta acessar a internet e você assiste a todo tipo de pornografia, inclusive vídeos de sexo explícito, mas na época não tínhamos acesso a nada disso. Na página da revista, uma mulher praticava sexo oral em um homem. Um outro colega, não lembro o nome, colocou a foto grudada na parede no fundo da sala. 

Eis que surge na porta o professor de português e literatura, Osni Uber, o tigrão, já falecido, pegando a todos de surpresa, ou como diz a expressão, "com as calças na mão". Muito espirituoso e de uma inteligência ímpar foi até o fundo da sala, retirou a foto, colocou grudada na lousa e falou: - vamos fazer uma redação sobre isso que está aí!

Após fazer um discurso de reprimenda sobre a falta de vergonha e caráter de quem tinha levado aquilo, de autoafirmação, de hormônios e do quão desrespeitosos fomos com as meninas, ele se arrependeu e pediu que as gurias saíssem. Algumas choravam, e após a saída delas, continuou durante mais um tempo com sua feroz manifestação, ameaçando a turma de punição. Após o sermão começamos a fazer a redação sobre a foto com direito a título e tudo. 

Só para lembrar a todos, estudávamos em um colégio salesiano. No dia seguinte, o padre Ervin, diretor da escola foi pedir aos alunos que não divulgassem o ocorrido, que iria manchar a reputação do colégio e tal. A cidade toda já sabia. No resumo da história, Jorge Farah, o aluno que levou a página e o colega que a colocou na parede, foram expulsos. As revistas, após rápida investigação, pertenciam ao pároco que após o trágico acontecimento foi realizar missas em outra paróquia de algum lugar qualquer.

O mundo daria muitas voltas e cada um foi estudar nas mais diversas universidades. Às vezes paro e me pergunto onde andam todos, o que estarão fazendo. Será que ainda tem essas recordações ou elas
se perderam em alguma página do livro da memória? Graças às redes sociais ainda converso com alguns e quase todos os anos encontro parte do grupo da escola. Nesses dias relembramos um pouco do passado, e rimos como se fôssemos aquelas crianças e adolescentes que ficaram eternizados em alguma foto, que viviam o presente a sua maneira e não tinham nenhum medo do futuro porque o futuro era uma interrogação e o presente uma dádiva.

domingo, 16 de maio de 2021

MEMÓRIAS DO AUXILIADORA - MÚSICA E PAIXÃO










 Minha vida até hoje se divide entre as paixões pela família, medicina, literatura e música. A música me acompanhou sempre como se minha vida sempre tivesse uma trilha sonora. E realmente sempre foi assim.

No colégio Auxiliadora sempre era escolhida uma música para entrada da aula. O intervalo era todo musical, com sucessos da época. Quando tocava a música escolhida era a hora de retornar aos estudos. Lembro de "Piu" da Ornela Vanoni. 

Adorava Queen, Abba, Milton Nascimento, Chico Buarque e Bee Gees que me renderam dois bons amigos na época, Sílvio Tavares e Paulo Bispo. O Sílvio tinha quase todos os álbuns da família Gibb e nos encontrávamos para fazer os trabalhos da escola e para ouvir as músicas. Outro irmão que consegui na vida foi o Carlos Nunes, parceiro de confidências, de futebol de mesa, da bola no campinho e no gosto pela música. Era mais jovem do que eu, mas dono de uma cabeça maravilhosa. Meu amigo na infância e adolescência e meu irmão de alma. Ainda encontro sempre que posso e faz parte do meu grupo de bom dia nas redes sociais.

No início do segundo grau implantaram na escola o sistema positivo. Difícil para os alunos que tinham uma base de ensino totalmente diferente e também para os professores. Optei pelo chamado extensivo por achar que seria melhor para me preparar para o vestibular e tinha aula nos dois períodos. Tinha um professor de Geografia chamado Miguel que era muito ruim didaticamente falando. Ele mandava abrir a apostila e apenas sublinhar os pontos que ele achava interessante e que poderiam cair na prova. Fiz uma paródia da música do Chico Buarque, Geni e o Zepelin, acredito que em 1979. que se transformou em "Miguel e o Zepervin". Miguel, o professor, Ervin Conzatti, o diretor, padre tranquilo e solícito. Citei quase todos os funcionários e professores na letra. Em um intervalo ou recreio, como era chamado, alguns colegas pegaram a letra e cantaram inteira, quase gritando. Fiquei apavorado com a possibilidade de ser punido, mas no final rendeu apenas alguns comentários. Na letra o professor de geografia ficava triste porque a professora de inglês, Raquel Brossard, só falava no Osni, professor de Português.

Raquel, sempre linda e educada chegou na aula seguinte explicando o porquê, já que a língua inglesa e portuguesa tinham tudo a ver. Naquele dia fiquei feliz, porque uma letra minha, polêmica é verdade, estava sendo motivo de comentários do corpo docente.

Outro destaque da escola na época era a banda marcial. Além de ser perfeita em suas apresentações comandadas pelo então diretor Lino Fistarol, tinha como destaque as balizas que faziam evoluções e embelezavam os desfiles. Minha prima Lia Martha foi a mascote durante um bom tempo. Lembro ainda da Fernanda, Lígia, Andréa, Viviane,  Simone, minha amiga, e do meu primeiro amor platônico, Maria Emília, a Mila. Minha bicicleta, pandorga, tudo na minha vida tinha o nome de Mila. Até um poema com seu nome escrevi, mas nunca tive coragem para entregar. Foi perdido com outros poemas e contos nas viagens. 

Há alguns anos Léo Jaime escreveu uma canção que me remetia a história com Mila que nunca aconteceu. Dizia " você vai de carro prá escola e eu só vou a pé. Você tem amigos à beça e eu só tenho o Zé prá consolar as tardes de domingo que eu passo a sofrer sonhando em ter um carro conversível prá você me querer..."

Coisas da adolescência! Restam as boas lembranças de um tempo que não volta mais.


sábado, 15 de maio de 2021

MEMÓRIAS DO AUXILIADORA - O INÍCIO











Quando passei para a quinta série fui obrigado a abandonar a segurança do meu grupo escolar. Martinho Saraiva, que ficava na Vila Industrial, a deliciosa sopa que dona Cantalícia fazia e meus primeiros colegas. A escola não tinha segundo grau e eu precisava ir adiante na formação. Com o esforço hercúleo dos meus pais, e com a frase do meu pai que guardei na minha gaveta da vida:  " a maior herança que um pai pode deixar para seus filhos é a educação!", entrei no colégio Nossa Senhora Auxiliadora, que era particular, e segundo muitos, a melhor escola que tinha na cidade. Meu pai havia sido interno lá e só tinha boas recordações.

O começo foi muito difícil. Minha timidez e a distância do colégio atrapalharam um bocado. Não conseguia participar das aulas de educação física, por exemplo, pois não tínhamos transporte que fechasse com os horários. Então, uma vez por semana ia para a biblioteca fazer pesquisa sobre os mais diversos esportes para abonar as faltas. Mesmo assim nunca abri mão do futebol, vôlei ou basquete que tinha antes das aulas e no seu intervalo. Quando perdíamos o último ônibus por ficar jogando, tínhamos que voltar até o km 5 da cidade a pé, Nossa casa ficava no terminal da Ipiranga, onde meu pai trabalhava.

A timidez sempre limitou meus primeiros passos. Mesmo tendo passado em uma eliminatória em sala de aula para cantar no coral da escola, não fui no dia combinado perdendo a chance de fazer algo que eu já amava que era cantar. Joguei damas em um campeonato organizado pelo clube do Padre Adolfo dos Anjos, que também era professor de matemática. Apesar de ter ganho do segundo colocado e empatado com o primeiro, desisti antes das finais, para jogar bola antes das aulas e no recreio. 

Em uma aula de Moral e Cívica, o professor Guido de Moraes, colocou toda a turma sentada em uma roda e questionou sobre nossas futuras profissões. Para delírio e gargalhadas da turma falei que queria ser médico ou padre. Meu futuro estava escrito! Seria médico. Na época eu achava que todo o padre era santo, o que logo nos anos a seguir me mostraria o contrário. A Medicina seria meu caminho e a pediatria já era uma opção. Eu tinha o melhor pediatra do mundo, Dr. Mário Mansur.

Na escola, havia um teatro antigo. Lá tínhamos as aulas de moral e civismo e fazíamos, na grande maioria, teatro da pior qualidade. Um dia descobri a poesia e comecei minha carreira solo fazendo declamações. Tremia mais que vara verde no palco e terminava as apresentações com a colinha de papel na mão esquerda, totalmente desmanchado pelo suor. Com o tempo aprendi a olhar para o infinito na declamação e a imaginar que era apenas eu ali. O palco virou meu amigo e me deu a experiência de falar em público e no futuro, me apresentar nas festas beneficentes com meus amigos músicos.

Com o passar dos anos fiz bons colegas e excelentes amigos. Um deles, Manoel Ernani, estudioso demais e que hoje é Psiquiatra em Porto Alegre. Era colega de aula e de trabalhos. Lembro ainda do Totona e seu irmão Marrota, apelidos de dois dos Bettervides que foram meus amigos do peito. Tinha também o Flávio, Gallo, Sílvio, e o Arturo que na época metia medo em todos .Graças ao Sílvio que acabei encontrando anos mais tarde em uma visita a Aceguá, fui incluido no grupo de bageenses  do whatsap e  convivo pelas redes sociais e sempre que posso ir a Bagé,  encontro alguns deles e falamos dos bons tempos de Auxiliadora.

Até o final do segundo grau foi uma jornada longa, sempre me equilibrando em cima das notas, que na caderneta escolar pareciam um grenal, notas azuis e vermelhas. Só que as vermelhas não eram do bem. Eram baixas em matemática, depois em Física, e altas em Biologia, História e Literatura. Não sei quando descobri a leitura, mas me tornei um rato de biblioteca, com fichas na escola e nas bibliotecas pública e do Sesi, lendo todos os clássicos que me caíam na mão, especialmente na literatura dos períodos romântico e realista brasileiros. Se hoje sou um defensor da leitura  agradeço a meus pais que me incentivaram a ler, me dando alguns livros de presente,  e a meu avô Gringo que não dispensou um bom livro e leu até o fim da vida.

Minha timidez continuou a me acompanhar, então comecei a escrever. Eram poemas e contos que se perderam no meio de tantas mudanças, mas que também mudaram minha percepção de mundo. Era um sonhador. Sonhava com o amor de uma menina, com a eternidade dos meus pais e avós e que todas essas amizades permaneceriam para sempre.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

OS PRIMEIROS ANOS FORA DE CASA








No primeiro ano de faculdade, em Passo Fundo, morei com mais dois caras em uma quitinete na rua uruguai. Morávamos no sexto andar de um prédio que de longe parecia um varal gigante, já que em todas as janelas ficavam roupas dependuradas para secar ao sol ou ao vento.  Eu, Norberto, que fazia Contábeis à noite e sonhava fazer Odontologia, e Rubens, que trabalhava na receita federal. 

Conheci Rubens através de um colega e amigo do cursinho, Miguel, outro que almejava odonto e mais tarde foi aprovado no vestibular. Norberto já morava no 603 e era dono de um fogão quatro bocas, uma geladeira do século passado, um beliche, uma pequena mesa de madeira e uma tv preto e branco de ínfimas polegadas. 

Conto essa história também para servir de motivação para outros jovens que saem de casa cheio de sonhos e muitas vezes se deparam com dificuldades e acabam desistindo. Encontramos na caminhada pessoas de todas as origens, boas e más, mãos abertas e muquiranas, sonhadores e realistas e até derrotistas que nublam os nossos melhores dias de sol. 

Dividir uma quitinete com mais duas pessoas não foi uma aventura fácil, assim como nunca foi fácil a faculdade que escolhi para fazer. Norberto ia para a casa dos seus pais quase todos os finais de semana, pois morava em uma cidade relativamente próxima. Na segunda, chegava com parte da comida pronta para a semana inteira, tudo em potes e vidros de nescafé. Embora, sempre educado e solícito e me oferecesse alguma coisa para degustar, a comida era dele. Eu e Rubens nos revezávamos na cozinha, Dia um, dia outro. Coisas rápidas mas que ficavam boas. E a fome sempre foi nossa melhor cozinheira. A dificuldade maior era quando tínhamos que dividir a minúscula cozinha que ficava na entrada do apartamento. Norberto aquecendo seus alimentos e eu tentando fazer os nossos. Quando o Rubens resolvia ficar no apê no domingo, o almoço era especial: arroz, maionese feita por mim e uma coxa completa de frango para cada um.  

Rubens dormia na parte de baixo do beliche, Norberto na parte de cima e eu em um bicama comprado pelos meus pais, que era nosso sofá de dia e minha cama à noite. 

Disputávamos diariamente os baldes, dois, para deixar de molho as roupas. As minhas roupas brancas eram motivo de brigas porque necessitavam de mais tempo de alvejante. Lavava e passava minhas roupas e até o pequeno varal era disputado pela gente. 

Para estudar, e como tínhamos apenas uma  mesa, fiz uma mesa em cima do tanque de lavar roupas. Era um cubículo, mas lá tinha silêncio para poder me concentrar nos estudos, dividindo os períodos com a lavagem das roupas. 

Sempre nos demos bem. O único stress que tivemos foi quando o Norberto resolveu cobrar o aluguel do fogão e da geladeira. Contei para o meu pai, que muito espirituoso sugeriu ao Norberto que levasse embora sua geladeira e fogão. Iria comprá-los e ele não precisaria pagar o aluguel. Aquilo "tocou" o coração do italiano que acabou mudando de ideia. Outro colega meu, pobre e negro falou que era meio escravizado por outro colega da mesma turma para dividir o apartamento com ele. Tinha que cuidar da limpeza do mesmo todos os dias e ainda com aula, em dois a três turnos e estudar.

Conhecia todos os moradores do prédio e quase todos os finais de semana havia jantar em um apartamento de um ou outro. Galinhada, carreteiro e às vezes um estrogonofe de carne acompanhado pelo vinho "Quinta do Monte", garrafão de cinco litros. Muitas vezes almocei com outros colegas, que como eu, viviam com muito pouco, mas dividiam o que tinham com outras pessoas. Antonio, hoje, médico em Mandaguari, Delmar, anestesista em Passo Fundo, Fernando, neurofisiologista e Alexandre, clínico, irmãos que levo para a vida toda. 

Durante a formação fiz plantões no pa, aprendendo o básico. No terceiro fui fazer plantões no interior durante catorze dias. Após a chegada do meu primeiro diploma, minha filha que amo muito, comecei a trabalhar de segunda à quinta, à noite no pronto socorro de fraturas. Foi meu primeiro emprego com carteira assinada. Aprendi a fazer gesso, raio-x, além de ser o faxineiro. E na residência, além dos plantões a cada quatro dias, fazia pelo menos dois plantões de setenta e duas horas nos fins de semana na cidade de Erechim.

A vida estudantil foi difícil, com filho e tudo mais, mas foi uma das etapas mais felizes da minha vida. Ter uma família boa e que te apoia, amigos que viram irmãos, aproveitar as chances que a vida te dá acompanhando bons professores, aprendendo a ter limites, fazer só o que sabe e não inventar milagres, boa vontade de encarar os desafios que a profissão vai te trazer, ser ético, são alguns dos ensinamentos que cada pessoa que cruzou o meu caminho me trouxe. 

Hoje valorizo cada passo que dei, cada um que cruzou o meu caminho e aprendi a amar. Pequenas coisas que me fizeram o homem e profissional que sou.