quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

DA VIDA, DE AMORES E FLORES!



 











Na minha cidade tem amigos, amigos

que não se escondem dos perigos

e quando são chamados, amados

vem de todos os lugares, cidades lunares

escondidos em suas ruas, planetas, 

redes sociais são lunetas que mostram

suas vidas, suas mortes, suas dores,

o que fazem, o que comem, seus amores.

Em algum lugar eu tenho gente, temente,

que um dia vão brotar de suas sementes

toda tristeza irá embora, na hora 

explodindo o mundo em flores, em cores.

Seus sorrisos são cativos, nativos,

mas serão todos ouvidos, cifrados, gargalhados

nos encontros, nos abraços, nos braços

que já estão tão emperrados

por não serem mais usados.

Em algum lugar eu tenho história, história 

escondida em algum livro guardado

na estante da memória, memória

com imagens e palavras faladas

que me contam do meu ninho, caminho, 

de pai, de mãe e avós, de mulheres respeitadas

de canções nunca gravadas, cantadas,

com as vozes dos meus erros e acertos, apertos, 

que na vida eu passei, sorri , chorei

para um dia te ancorar amor, amor puro,

dos poetas e das musas, das sereias e medusas,

dos mares nunca navegados, 

e encontrar a paz sonhada.

nos teus braços meu  porto seguro.


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

OS PRIMEIROS ANOS DE ESCOLA

 














Em 1970, com cinco anos de idade, entrei na escola municipal Martinho Saraiva, que ficava na vila industrial. Apesar de humilde e de ter turmas apenas até a quarta série, a diretora e as professoras tinham boa formação e eram esmeradas, dando-me uma boa base para os anos seguintes que faria no colégio Auxiliadora. Pegávamos um ônibus as 7h da manhã  e voltávamos as 11:30h. Íamos e voltávamos a maioria das vezes na companhia das professoras. 
Na rádio do ônibus, o padre Fredolin Brauner gritava, "te levanta vagabundo! Lago que tem piranha, jacaré nada de costas e macaco bebe água de canudinho!". As músicas gauchescas nos acompanhavam na viagem. Uma que ficou na minha memória se chamava "tristeza, vá embora!", do falecido José Mendes. 
Minha primeira professora foi minha tia Marlene, mãe do meu primo Marcos Vinícius, que além de ser da minha idade, sempre foi um irmão e amigo. Disputávamos sempre o prêmio de melhor aluno da classe.
Nas correrias da escola fraturei meu primeiro dente e descobri que teria que usar óculos. Lembro com carinho das outras mestras, Tânia, Albina e Maria Antonieta. Fiz bons amigos, mas a lembrança mais doce que trago comigo é a da cozinheira da escola, dona Cantalícia, que fazia uma sopa maravilhosa, além de deliciosos bolinhos que acompanhavam o chocolate quente servidos em canecas esmaltadas e que nos aqueciam no inverno rigoroso de Bagé.
Em um dia de sol de 1972,iríamos receber a visita do ilustre bageense, presidente da república,
Emílio Garrastazu Médici em nossa escola. A vila era formada de casinhas baixinhas e geminadas,  habitadas por trabalhadores e suas famílias, onde o única indústria era um frigorífico chamado, na época, de Cicade. 
Foram muitos os dias que envolveram os preparativos para a recepção. Uniforme branco e azul-marinho engomado, bandeirinha na mão e uma expectativa enorme para receber o presidente do Brasil. Ninguém falava em ditadura, muito menos que as pessoas estavam desaparecendo de suas casas sem deixar vestígios. Frases como "Brasil! Ame- o ou deixe-o!" e "Ninguém segura esse país!" entre outras, serviam de estimulo para acreditar que tudo estava bem. E o Brasil tinha ganho a copa do mundo de futebol há pouco. Só tínhamos que acreditar no " Prá frente Brasil!". 

Naquele dia, um sol de rachar, e eu  com 7 para 8 anos, em formação como toda a escola aguardando o homem que não chegava. Apertei a mão daquele senhor educado e de sorriso simpático, que parecia um avô de todos. Como resultado da espera eterna no sol, tive febre de 38 graus, graças a  uma amigdalite que me acompanharia até mais tarde, quando meus pais deram um basta e eu fui submetido a uma cirurgia para retirada de amígdalas. Apesar de doloridos dias após a cirurgia, a felicidade voltou. Dei adeus às amígdalas e à benzetacil que pelo menos uma vez ao mês tirava meu sorriso do rosto.

Os anos passaram mas a escola continua lá, no mesmo lugar ao lado de uma igrejinha. 

Vez por outra, ainda ouço os versos de José Mendes. " Tristeza, porque você não vai embora e manda essa saudade te acompanhar. Tristeza porque você não vai agora e manda a felicidade em teu lugar!"


domingo, 14 de fevereiro de 2021

A CASA DA BISA!

















Durante a infância e adolescência, sempre moramos,  a pelo menos 5 km da cidade. Meu pai trabalhava em um a distribuidora de petróleo, por isso a distância. Na lembrança de menino, que sem entender nada assistiu a subida do homem à lua em uma tv preto e branco, na casa de minha bisavó Joana, guardo memórias que o tempo nunca apaga, por mais que as datas se misturem um pouco. 
Nossa bisa era quase vizinha, porque também morava na avenida Visconde Ribeiro de Magalhães, em frente ao prado, ou associação rural de Bagé, famosa por suas corridas de cavalo e pelas expo-feiras na época. Lá ficamos hospedados durante um tempo devido a uma reforma na casa em que morávamos.
Havia uma grande figueira atrás da casa, um pequeno açude nos fundos com um frondosa árvore, onde íamos brincar e em datas festivas eram realizados os almoços sempre com churrasco feito pelo meu pai.
O açude mais tarde foi aterrado tirando um pouco da beleza do lugar. A figueira deu lugar a uma casa de madeira onde morava uma filha da bisa, com seus dois filhos. Grandes amigos que tive, o Laco e o Nego. Eram gêmeos mas totalmente diferentes no fenótipo e nas atitudes. Um era louro, preguiçoso e sonhador, o outro moreno, realista e trabalhador. 
Muitos campeonatos de futebol de botão foram realizados com eles e muitas peladas nos bretes que ficavam atrás do terreno da vó Joana, como era chamada. Além, dos meninos, com a minha vó morava uma prima do meu pai, além de uns tios que eram muito boa gente. 
Aos sábados à tarde ia, na pré-adolescência, ajudar o tio Adão, como era chamado, a preparar a missa da capelinha da vila. Geralmente eu ficava com uma das leituras. Tempos bons em que acreditávamos piamente que os padres eram os verdadeiros representantes de Deus na terra.
Minha bisa era uma querida e ficava muito feliz com as visitas e mais ainda com os doces em caixas e as compotas que ganhava de presente. Já velhinha, corcundinha e com pouca visão sempre acabava ganhando os jogos de pif, do meu avô Sadi, que saía da mesa sempre xingando indignado sem saber como aquela idosa que mal conseguia arrumar as cartas na mão sempre saía vitoriosa.
Lá tivemos bons momentos e lá lembro de um castigo homérico. Eu e meu irmão Claudio brigamos por algum motivo banal e acabamos amarrados em uma mesa, de joelhos no milho, até fazer as pazes. 
Eram outros tempos, mas sobrevivemos e aprendemos a ser bons amigos e filhos. 
Depois da casa reformada, íamos quase todos os dias no final de tarde visitar a bisa, a pé. Na volta, cansados, disputávamos quem vinha "montado" no pescoço do pai. 
O mundo parecia ser tão grande e tão melhor, e o mais importante, era nosso!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

SOLIDARIEDADE! "O SOLIDÁRIO NÃO QUER SOLIDÃO!" (MILTON NASCIMENTO)
























 No km 5 da avenida Visconde Ribeiro de Magalhães, passei a maior parte da minha infância. Em 1973, se não me falha a memória, enquanto Raul Seixas deveria estar alegre por comprar um corcel 73, a avenida ainda não era asfaltada. Do lado da casa em que morava passava um córrego onde cada vez que chovia mais forte, transbordava, carregando além de galhos de árvores e lixo, os sonhos de muita gente. 

Nossa casa ficava num local um pouco mais alto e não corria riscos de enchente. Lembro que as casas dos  vizinhos do outro lado da rua eram baixinhas, como a maioria na fronteira, inundavam facilmente e aumentavam o sofrimento do povo bom e trabalhador que ali residia.

Na frente morava um casal de idosos com sua filha. O homem curvado pela idade, e também pelo exausto trabalho desfilava um carrinho de madeira carregado de hortaliças, fruto de sua horta muito bem cuidada e que, nesses tempos de chuva intensa, perdia quase a totalidade da produção para a  força das águas.

Ao lado vivia uma família de evangélicos, formada por uma senhora que vivia falando mal dos outros e rezava muito, e suas duas filhas, pessoas maravilhosas que de vez em quando vinham ajudar a cuidar da turma.

Não foi uma ou duas madrugadas que vi minha casa cheia de gente, fugindo de suas casas alagadas, molhados na roupa e nos olhos. E minha mãe os recebia com carinho, entre cafés e cuias de chimarrão para aquecê-los e dizendo palavras de consolo que o dia seguinte seria melhor. Ali, aguardavam o clarear do dia, ou quando passasse a tempestade para contabilizarem os danos. Meus pais nunca pediram nada em troca, mas no seu coração ganharam o amor e o respeito daquelas pessoas. Apesar de nossa casa ser muito modesta, quarto, sala, cozinha, sala de jantar(onde ficava nosso beliche) e banheiro, lembro bem dessas noites "em claro" em que nossa sala se enchia de tristeza e ao mesmo tempo esperança. 

Minha mãe, como boa católica, queimava um ramo bento e orava para Santa Rita de Cássia para que logo o tempo acalmasse. Para meu irmão mais novo a tormenta se tornava uma festa já que a casa ficava cheia. 

Para mim, no alto dos meus oito anos, adorava ouvir a música da chuva caindo no zinco que cobria a casa, e o meu sentimento era de puro orgulho e amor infinito por  meus pais. Naquela época descobri o significado da palavra solidariedade em toda sua plenitude.

No livro de escola, " Nossa Terra, Nossa Gente, descobri Casimiro de Abreu e mais tarde concordaria com ele. " Oh! que saudades que eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais! ...." 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

VELHA INFÂNCIA

















Era uma vez em  uma cidade do interior
um menino que vivia feliz
entre primos e irmãos.
A vida era uma brincadeira
heróis e bandidos eram iguais,
como iguais eram as pessoas
e os caminhos eram livres da maldade.
As histórias que ele ouvia
eram retiradas da caixa de livros
das memórias dos avós,
contadas à beira do fogão à lenha.
Aqueles eram dias onde o inverno era quente
e o verão tinha o frescor dos plátanos.
O perfume era de café e  pão caseiro
e cabia o mundo inteiro em uma mesa tão pequena
"Lá vai o menino fazer chamarisco!" ,gritava minha avó
bola embaixo do braço, feliz ia para o campinho
corria a tarde inteira sem cansaço, na volta banho 
jantar e um grande abraço!
E os dias que não passavam, voavam despercebidos
Ah! Saudades de minha família
que parecia tão grande e hoje se faz minguada,
dos tombos de bicicleta  a pedalar sem as mãos
da vó, que me ensinou as primeiras letras e a tabuada.
Saudades da  esperança de esperar o natal,
do cheiro de terra molhada,
da alegria do mês de agosto,
dos dias em que o presente eram os pais presentes
Dias de jogar  bolinha de gude
de jogar botão, e de leitura,
da pandorga no céu limpo
da pescaria no açude e  de fartura
de primos e primas sorrindo
porque criança ri à toa
e o presente estava ali e o futuro era um nada.
Nunca havia solidão, apenas solidariedade
dos meus pais com os vizinhos
quando as cheias do inverno
invadiam as casinhas pequeninas,
causando incerteza e dor.
Lá em casa tinha abrigo apesar da simplicidade
era lá que tinha  amigo, era lá que tinha amor
velha infância que se foi 
só não morre na memória
nem nos livros de história
que escrevi no pensamento
" Era uma vez um gatinho xadrez..."
quer que eu te conte outra vez?
então passa para o outro lado
e assim meu pai por vezes tão cansado
brincava conosco no final do dia
e entre gargalhadas, eu dizia:
pai! Conta mais uma vez!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

1970 - A COPA DAS GALINHAS
















 




Durante a copa do mundo de 1970 eu ainda não tinha feito 6 anos, mas em minha memória de menino ficaram gravados alguns fatos e imagens que hoje se misturam com as tantas vezes que assistimos o "escrete canarinho" e suas jogadas que encantaram o mundo.

Meus pais tinham uma televisão telefunken, preto e branco, de 20 polegadas, coisa fina na época. Nela foram assistidos todos os jogos ao vivo, direto do estádio de Guadalajara, em Jalisco, no México. Não contente, meu pai ouvia a narração em um potente rádio, cheio de velas que iluminavam a parte de trás do mesmo.

Na noite da final da copa em que a gloriosa seleção brasileira de Pelé, Tostão e Rivelino bateram à Itália, a festa estava preparada. Minha tia Lena, irmã de minha mãe estava lá aumentando a torcida pelo Brasil. Batata doce cozida era o cardápio do jogo. A bebida, uísque, provavelmente um Drurys.  O resultado foi uma festa dentro e fora do campo, com direito a um trago estupendo e ressaca certa no dia seguinte.

Mas, nem tudo foram flores. Um episódio trágico-cômico estragou a alegria deles.  Faltou água em casa e e eles tiveram que ir até um poço que ficava uns 700 metros de distância, um se segurando no outro para não caírem, e ligarem o motor para encher a caixa d'água. Quando voltaram perceberam que a porta do galinheiro estava aberta.

Durante o jogo, os meliantes de plantão, roubaram as 54 galinhas do galinheiro de casa, deixando apenas uma única com a pata quebrada.

Após o episódio, minha mãe chorou copiosamente. Meu pai, sempre espirituoso, perguntou a ela se a vitória da seleção era motivo para chorar. Ela, totalmente ébria, em soluços, rebateu imediatamente:  "
Não choro pelo campeonato, mas sim pelas minhas galinhas!" Minha mãe nunca mais criou galináceos e a família ficou pelo menos duas décadas sem comemorar outro título mundial. 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

VERÃO TODO DIA













Nasce o dia, abro os olhos

Ao meu lado azul imensidão

O teu beijo, teu bom dia

O teu corpo lindo, um clarão 

Só assim acorda lindo o dia

Quando teu sorriso rompe a escuridão

e invade o meu ser.

Clareia verão!

Meu mundo se prepara pra a invasão

É sempre calor quando se dorme 

e acorda à sombra de um vulcão.

Nasce a vida simplesmente

Quando a rosa se abre em botão

Teu abraço, minha rocha

Sentimento que é pura emoção

Meu exército te invade

Tua cidade é pura explosão.

Clareia paixão! 

Minha cabeça tonta perde a razão

É sempre verão!

Quando se dorme e acorda

à sombra de um vulcão!