
Sabe aquelas coisas que falamos na infância e ninguém leva muito a sério. Pois é dessas coisas que estou falando. Na primeira aula de Moral e Cívica(eu fiz isso) na quinta série, eu com 9 anos, respondi a pergunta que o professor Guido de Moraes fez para todos. O que você quer ser na vida? Respondi: médico. Não sei quando decidi pela Pediatria, mas meu pediatra com certeza me deu o primeiro impulso. O nome dele: Mário Mansur; pessoa fantástica, carinhosa e muito estudiosa. Na faculdade, tive bons mestres que só me fizeram ratificar minha escolha. Ruy Wolff, Luis Ecker, Gaspar e o velho Rudah Jorge, figura incansável pelo bom desempenho do hospital onde fiz minha residência. Hoje estou em uma cidade com aproximadamente 50 mil habitantes e divido meu trabalho com uma colega. Vivo bem, mas os tempos mudaram. As faculdades procriaram médicos de todos os tipos, fora os que importamos da Bolívia e de outros países vizinhos e a profissão, antes um sacerdócio, ficou banalizada. A política de saúde do governo é cruel e desumana, e cada vez mais joga para os estados e municípios a obrigação que era sua. Os planos de saúde mataram os pacientes particulares e restaram apenas os empregos em plantoes com salários vis e nas prefeituras. Com a pediatria acontece algo semelhante. Hoje precisamos correr ensandecidos em nosso dia-dia. Consultório, hospital, postos de saúde, salas-de-parto que nao tem fim, mas tudo por causa da desvalorização profissional. Nos colocaram no mesmo saco que todos os outros. As residências em pediatria sobram vagas. Nas cidades do interior faltam pediatras. Nossa sociedade nos enaltece como heróis que somos, e luta por uma remuneração digna. Promove campanhas, congressos, cursos, tudo em prol de um atendimento de qualidade, mas bate de frente com um governo repleto de vícios e sem interesse nenhum em melhorar a saúde. A SBP tenta há anos colocar os pediatras em PSFs, defendendo os interesses das crianças e dos adolescentes, sem sucesso. Agora, a sociedade, coloca mais uma campanha nacional em defesa da classe. "Quem vai ao pediatra volta tranquilo" Está nas ruas, nos out-doors. Esperamos que também entre na cabeça dos responsáveis pelas políticas de saúde.
Acho que ainda somos dignos. Colocamos nossa cara a tapa todo o dia, quando temos que estar em dois lugares ao mesmo tempo. Ainda não largamos o sus no hospital porque nao tem ninguém para atender essas crianças e elas não merecem e nao imaginam o descaso com que suas vidas são tratadas pelos responsáveis pela saúde. Neste dia 27, o dia em que foi fundada a Sociedade Brasileira de Pediatria, comemoramos o dia do pediatra. Talvez nenhum paciente lembre desta data. Talvez os pediatras esqueçam porque estarão de plantão ou porque cansaram e foram vencidos pelo descaso. Acho que nem tudo está perdido. Enquanto houver uma criança nascendo teremos esperança de que algum dia as coisas mudem e esta data seja sempre lembrada por todos que acreditam no futuro.
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