As pessoas me perguntam diariamente o porquê dos pediatras não ficarem aqui em Lucas do Rio Verde, já que é uma cidade jovem, com uma população jovem e trabalho não falta.Estou aqui há quinze anos e já vi passarem por aqui muitos médicos e alguns pediatras.
A família tem parte importante nessa decisão, mas, a promessa de bons contratos que são quebrados logo que os colegas se mudam para cá é a maior causa. Oferecem mundos e fundos quando não tem profissional na área, mas logo, isso muda com a chegada de outros que exercem a mesma especialidade e o que era bom fica sofrível.
Com a pediatria, não é diferente. A população cresce em proporção geométrica e a pobreza, resíduo do progresso sem planejamento, também.
Para início de conversa, ninguém mais quer fazer pediatria. A baixa remuneração e a necessidade de estar constantemente disponível são alguns dos motivos. Estudar 6 anos na faculdade e depois fazer de 2 a 3 anos a especialização, já não é tão atraente. Como todo profissional médico, deve exercer seu juramento e atacar a doença em duas frentes: a curativa e a preventiva. Porém, o tipo de paciente é totalmente diferenciado, não sabendo verbalizar seus sintomas ou verbalizando com dificuldade, fazendo com que o profissional fortaleça seus laços com os mesmos, se comunicando além das palavras, da fisiologia e do diagnóstico. Carrega consigo as angústias dos pais, dos avós, de todos os que convivem com ele jogando toda essa carga em cima do pediatra.
Exercer essa especialidade é maravilhoso. Trabalhar com pessoas que não sabem ainda apontar seus problemas é difícil, mas ao mesmo tempo, não inventam dores e doenças. Não mentem.
Segundo a OMS, são 18 pediatras para cada 100000 habitantes. Então, teoricamente sobram profissionais. E por que eles não vem para o interior? Porque nos grandes centros, apesar de possuírem quatro ou cinco empregos, quando acaba o seu turno, ficam tranquilos, já que a responsabilidade sobre o paciente é passada para outro colega que entra de plantão no seu lugar.
Isso não acontece nas cidades do interior, como a nossa. O paciente se torna seu eternamente, ou até o dia em que você não pode atendê-lo e seus pais o levam a outro, desistindo dos seus serviços. Pacientes graves, prematuros ou outros que necessitam cuidados intensivos, são de nossa responsabilidade até conseguir um leito em alguma CTI, que todos sabem, é praticamente impossível achar alguma vaga no estado quando precisamos.
Sem o mínimo necessário de recursos, muitas vezes básicos, para o atendimento dos seus pacientes, contratos baratos e não cumpridos, consultas de convênios com preços vis, em uma cidade cara e sem atrativos culturais, não há nada a oferecer que não tenha em outros locais, fazendo com que os poucos que se aventuram, desistirem e voltarem para suas cidades de origem.
Depois de todos esses anos morando e trabalhando aqui, fica difícil sair e começar tudo de novo. Mas, em domingos como esse, que o tempo parece sonolento, e que a família liga para saber notícias e te falam que estão reunidos, almoçando juntos, você pensa duas vezes.
E viva la vida!
Perfeito!
ResponderExcluir