quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A CIDADE E A PUBLICIDADE! REALIDADE OU FANTASIA?


Fico me perguntando se as matérias jornalísticas que passam nas redes de televisão são pagas pelas prefeituras ou vão para o ar realmente porque são interessantes e dão audiência. Mostrar as riquezas e o crescimento de um município apenas pelo lado bom preocupa. Muito bonito ver a  cidade em que moramos, em cadeia nacional,  mostrada para nossos parentes e amigos espalhados pelo Brasil. Muito feliz ver nosso povo orgulhoso nas redes sociais. A agricultura e a coragem dos desbravadores do sul  realizaram um milagre no coração do Mato Grosso. Fica bem claro isso conhecendo as outras cidades daqui.  A natureza foi pródiga com lugares como Chapada dos Guimarães e Nobres, entre outras, mas os pontos turísticos são mal aproveitados, por serem mal administrados. Os locais onde a pecuária desponta ficou paralisado no tempo e a população colhe pobreza. Acho que é uma característica das cidades pecuaristas, pois no sul do país é igual. Lugares onde a agricultura é forte, brota oportunidades. Vide o norte desse estado. Mas isso me traz à preocupação inicial. Crescemos muito rapidamente. E todo o crescimento desenfreado gera resultados indesejáveis. A matéria, como todas as outras que foram feitas pela grande imprensa nacional refere-se apenas ao sonho realizado, os prédios maravilhosos, a fábrica que trouxe o progresso, os bons salários, a felicidade estampada na cara das pessoas, os projetos que deram certo, o time do interior que conquistou o estado e o país.
Isso é maravilhoso, mas é isso que desejamos? O Luverdense chegou onde está pela determinação e insistência de um sonhador chamado Helmuth Lawisch,  que acreditou que era possível fazer futebol nesse estado tão precário de tudo. O que era para ser um passatempo, virou profissionalismo. O que era para ser uma diversão para esse povo trabalhador, virou uma paixão.
A saúde ainda é "capenga" que nem no resto do Brasil, mas isso não dá ibope. Os PSFs são prédios bonitos, mas ter profissionais dispostos a virem para cá é outra coisa. Nosso hospital vive a realidade dos outros que atendem sus; Está pedindo socorro. O casal feliz da reportagem que comprou carro e casa e trabalham na em uma fábrica de alimentos, é uma exceção. A maioria tem rendimentos pífios e sofrem para se manter em um lugar com alto custo de vida como esse.
Em outra localidade, falaram em cortadores de cana ganhando 4 mil reais. Só esqueceram de citar é que o salário é para o operador de máquinas e não para o que corta e sua, com o facão nas mãos. Ocultaram que aqui os que operam colheitadeiras com ar condicionado e tratores, são mais valorizados e melhor remunerados,  que os professores, que vão educar seus filhos.
Quem conquistou seu quinhão há vinte, trinta anos atrás se mantém forte, mas o profissional que chega hoje aqui não tem como fincar o pé se não lhe derem as condições necessárias para sobreviver, até alcançar sua independência econômica, se é que isso ainda é possível. Luz, água, impostos e aluguéis exorbitantes, além de promessas financeiras não cumpridas, colaboram para que pediatras e outros profissionais liberais não fiquem na cidade e na região.
A riqueza do município se traduz, na realidade, em  uma porta aberta para a pobreza. As drogas, a violência, o álcool, a prostituição sempre estiveram aqui, mas agora, fogem do controle.  Formar médicos, professores, policiais, denota tempo, mas a miséria vem rápida, de todas as partes procurando um lugar digno para moradia.  Basta ver os médicos de Cuba chegando, com sua formação duvidosa, com pouca bagagem, querendo fugir de uma realidade muito pior, buscando apenas o seu lugar ao sol. Precisamos refletir se esse tipo de publicidade é bom para todos, ou apenas para meia dúzia, que almeja subir degraus na política.
E viva la vida!

domingo, 10 de novembro de 2013

POR QUE NÃO HÁ MAIS PEDIATRAS?

As pessoas me perguntam diariamente o porquê dos pediatras não ficarem aqui em Lucas do Rio Verde, já que é uma cidade jovem, com uma população jovem e trabalho não falta.
Estou aqui há quinze anos e já vi passarem por aqui muitos médicos e alguns pediatras.
A família tem parte importante nessa decisão, mas, a promessa de bons contratos que são quebrados logo que os colegas se mudam para cá é a maior causa. Oferecem mundos e fundos quando não tem profissional na área, mas logo, isso muda com a chegada de outros que exercem a mesma especialidade e o que era bom fica sofrível.
Com a pediatria, não é diferente. A população cresce em proporção geométrica e a pobreza, resíduo do progresso sem planejamento, também.
Para início de conversa, ninguém mais quer fazer pediatria. A baixa remuneração e a necessidade de estar constantemente disponível são alguns dos motivos. Estudar 6 anos na faculdade e depois fazer de 2 a 3 anos a especialização, já não é tão atraente. Como todo profissional médico, deve exercer seu juramento e atacar a doença em duas frentes: a curativa e a preventiva. Porém, o tipo de paciente é totalmente diferenciado, não sabendo verbalizar seus sintomas ou verbalizando com dificuldade, fazendo com que o profissional fortaleça seus laços com os mesmos,  se comunicando além das palavras, da fisiologia e do diagnóstico. Carrega consigo as angústias dos pais, dos avós, de todos os que convivem com ele jogando toda essa carga em cima do pediatra.
Exercer essa especialidade é maravilhoso. Trabalhar com pessoas que não sabem ainda apontar seus problemas é difícil, mas ao mesmo tempo, não inventam dores e doenças. Não mentem.
Segundo a OMS, são 18 pediatras para cada 100000 habitantes. Então, teoricamente sobram profissionais. E por que eles não vem para o interior? Porque nos grandes centros, apesar de possuírem  quatro ou cinco empregos, quando acaba o seu turno, ficam tranquilos, já que a  responsabilidade sobre o  paciente é passada para outro colega que entra de plantão no seu lugar.
Isso não acontece nas cidades do interior, como a nossa. O paciente se torna seu eternamente, ou até o dia em que você não pode atendê-lo e seus pais o levam a outro, desistindo dos seus serviços. Pacientes graves, prematuros ou outros que necessitam cuidados intensivos, são de nossa responsabilidade até conseguir um leito em alguma CTI, que todos sabem, é praticamente impossível achar alguma vaga no estado quando precisamos.
Sem o mínimo necessário de recursos, muitas vezes básicos, para o atendimento dos seus pacientes, contratos baratos e não cumpridos, consultas de convênios com preços vis, em uma cidade cara e sem atrativos culturais, não há nada a oferecer que não tenha em outros locais, fazendo com que os poucos que se aventuram, desistirem e voltarem para suas cidades de origem.
Depois de todos esses anos morando e trabalhando aqui,  fica difícil sair e começar tudo de novo. Mas, em domingos como esse, que o tempo parece sonolento, e que a família liga para saber notícias e te falam que estão reunidos, almoçando juntos, você pensa duas vezes.
E viva la vida!


domingo, 3 de novembro de 2013

O FIM DO LIRISMO OU A GRIFE DA DEPRESSÃO

Estou farto do lirismo comedido, do lirismo bem comportado, dizia Manuel Bandeira em um dos seus poemas mais famosos. Eu também estou farto das perguntas descabidas, dos espíritos de porco, da grosseria sem noção de alguns pacientes e pessoas do meu convívio. Dos políticos feito de promessas nunca compridas, dos impostos desenfreados, da economia burra e eleitoreira de Dilma e do povo asno e preguiçoso que insiste em defendê-la.
Acho que meu otimismo tirou férias. A diabetes talvez tenha a ver com isso. Quanto mais doce, mais amargo vão ficando os dias. Moramos em um país estranho, talvez por isso estranha é a cidade em que vivo. Quem pensa ou tenta colocar suas idéias em prática é persona não grata. O privilégio é dos sem função social, dos parasitas, comensais e medíocres. Talvez se deem melhor porque são fáceis de manipular e acabam sendo laranjas de uma árvore que apodreceu faz tempo.
A imprensa impressa ainda tem um pouco de dignidade e coloca a notícia de forma clara e concisa após investigação. A televisiva, com raras exceções, é uma grande piada. Não bastasse um canal de tv com um pseudo-jornalismo, agora são dois. As redes de televisão ficaram entregues a políticos e os escolhidos para ficarem em frente às câmeras são pessoas despreparadas, analfabetas e sem comprometimento com o povo. A "grife" da notícia, diz um deles. Que beleza! Uma grife tão boa quanto o "arrocha" e o funk de Tati Quebra Barraco. Estamos descendo às escadarias do ridículo, até os porões da mediocridade. Por isso acabaram com a graduação de jornalismo, para deixar a escória assumir os veículos de comunicação e apenas noticiar o que lhes convém. Enquanto isso a população sem cérebro e manipulada, se excita com imagens de acidentes e assassinatos mostrados de modo cru e "exclusivo" nos jornais do meio-dia. Nas redes sociais compartilham fotos de abortos, pregam a discriminação e superestimam os pastores de igreja nenhuma. Será mesmo o final dos tempos?
Fico imaginando uma luz no fim do túnel. Já pensei em desistir, ir embora. Largar tudo. Esquecer de que um dia cheguei aqui cheio de sonhos, e que o hospital que eu ajudei a planejar e montar esteja tão mal-tratado. Porque sem direção nem os barcos seguem seu rumo. Vamos perdendo os bons funcionários, os que vestem a camisa, por insegurança, desvalorização. E vão ficando apenas os que não tem nada a perder, os que vivem reclamando de tudo e não se esforçam nem para manter a imagem deles, nem a do local que lhe dá o sustento.
 As drogas e a impunidade proliferam como no resto do país. Assim é tudo aqui. E, por fim, acabamos de servir de escudo aos que se julgam mal-tratados, mal-amados, e talvez o sejam. Mas a ignorância, a maldade, a grosseria  apenas vão levar ao meu desprezo e indiferença lamentando apenas pelas crianças, que em sua inocência, não tem culpa de nada.
Acho que realmente estou farto de todos os lirismos, ou talvez seja apenas depressão. Mas, se for é de grife.
E assim vamos vivendo, estressados e doces. Sobrevivendo com indignação, mas, ainda com dignidade.
E viva la vida!