
Comemorar o dia da minha profissão é celebrar a vida. Mas em um período em
que a vida tem cada vez menos valor, fico feliz com as poucas lembranças e agradecimentos nesse dia. Sei que todos foram de coração. Minha mãe ligou cedinho para me parabenizar, esposa, filho e poucos pacientes. Talvez porque é apenas mais uma profissão, ou apenas porque os valores foram invertidos. Volto aos tempos de faculdade e lembro dos meus sonhos de moço e estudante. Do departamento de imprensa do diretório acadêmico, à presidência no ano seguinte. Das brigas por condições melhores de transporte, refeição e melhores professores. Da decisão de seguir a mesma especialização de meu pediatra, sem saber do descaso que iríamos enfrentar no futuro.
O pseudo-socialismo do governo, gera,divulga e defende uma "moral" amoral, que degenera a pessoa humana transformando a vida de alguns à custa de outros, exigindo nosso sacrifício e suor nos sobrecarregando de impostos e outras obrigações, por vezes difíceis de cumprir.
Tento acreditar em dias melhores, em nos libertarmos disso tudo e exercermos a dignidade da nossa profissão.
Continuamos a ser estimulados ao individualismo, cujo único pensamento estreito começa e termina em nós mesmos. O indivíduo é empurrado a conseguir para si o maior número de bens materiais, mesmo que isso signifique pisar no colega ao lado. A qualidade da relação entre os profissionais desce a níveis nuncas antes imaginados. A ética médica é afetada, pois ela é reflexo dos princípios morais prevalentes na sociedade. Quando há um enfraquecimento geral da moral, como a do governo brasileiro, cada qual querendo tirar vantagem dos demais, difícil preservar princípios honestos de conduta em um segmento da população. Os médicos, não sendo melhores, nem piores que os demais sofrem, igualmente as pressões do meio. Já senti na pele o que discorro aqui. Nem todos conseguem ser éticos. Há felizmente, um número considerável de brasileiros, entre os quais muitos médicos, em luta pela reversão disso tudo.
Tudo o que vivemos hoje, origina-se do fato que uma minoria controla direta ou indiretamente os meios de produção e distribuição de bens e tenta manter seus privilégios a qualquer preço, mantendo inalterada a situação na educação, segurança e saúde que são cabides eleitorais todos os anos.
O Brasil continua organizado para satisfazer uma pequena parcela da população; Uns trabalham.Para os demais, bolsas-família servindo como mordaça na luta pela dignidade. O caos continua instalado nas unidades de saúde de todo o país. Se a assistência médica fosse organizada e houvesse valorização dos profissionais, todos os médicos já sairiam da faculdade empregados e não haveria essa carência e essa precariedade em alguns lugares.
Em nossa formação ouvimos que nosso sucesso dependeria do esforço pessoal, da capacidade técnica, do senso do dever e de outras qualidades individuais, mas descobrimos com o passar do tempo que dependemos mais ainda de uma política sem compromisso com a vida. O caminho é longo e precisa de organização social e política que valorize o trabalho acima de tudo.
Ainda assim, meu trabalho é gratificante. A relação de respeito e afeto com os pequenos pacientes faz com que sonhamos com dias melhores. A tarefa de acompanhá-los nessa caminhada procurando ajudá-los a construírem-se como pessoas é ímpar e cativante. Então, poder imaginar um mundo melhor vale suportar as larvas diárias, com a certeza que um dia serão, finalmente, borboletas.
Obrigado a meus pais e aos mestres que me incentivaram na caminhada como médico e principalmente, como ser humano!
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