domingo, 2 de janeiro de 2011

Diário de bordo: BAGÉ


Até meus 14 anos de idade Rio Grande do Sul era o meu país e Bagé a capital dele. Conhecia apenas o Rio Grande e suas fronteiras com o Uruguai e a Argentina. Meu mundo era pequeno, mas achava que era o centro de tudo. Minha casa era enorme, o terreno sem fim e a cidade com cara de se perder por aí. Cresci e fui para outras querências, fazer cursinho pré-vestibular e faculdade e descobri que o mundo era bem mais do que isso. O hino que cantávamos quando pequeno, falando que Bagé era terra da gente onde o futuro dizia presente ficou no tempo. A letra esquecida em alguma gaveta e o futuro morreu. Hoje a cidade tem em torno de 12o mil habitantes. Minha escola não tem mais banda marcial. As fontes de renda do município, carne e lã já não são mais as mesmas.
Os anos passaram e as administrações passaram também e esqueceram de investir no público, como no restante do país. A cidadela dorme em berço esplendido. A maior parte das ruas tem calçamento precário e na frente da casa de minha mãe, em um bairro nobre e próximo ao centro, não tem calçamento e os esgotos estão a céu aberto. Parece que as pessoas aqui não sonham e não almejam nada além de formar uma família. Os empregos são escassos e os salários miseráveis. As pequenas empresas abrem em qualquer prédio sem o mínimo de investimento, sem fachadas, ou pinturas. A cidade parou no tempo e ficou esperando os milagres do governo Lula e de São Sebastião, seu padroeiro.
Os dois times da cidade, inimigos ferrenhos dentro e fora de campo não saem da segunda divisão do futebol gaucho há décadas. Jornais e rádios fecharam suas portas e há apenas um cinema que insistem em sobreviver.
A saúde está igual ao resto do Brasil, morta pelo Sus e sua política mau-caráter e deprimente, imposta por um governo esclavagista que dá esmolas ao povo em troca de votos. Os PSFs pagam mal e os profissionais que são poucos, fazem o que podem para sobreviver e atender a população.
Os governos foram matando pouco a pouco o futuro. Apenas as famílias sobrevivem amarradas no seio dos patriarcas e matriarcas que ainda existem, fortes e persistentes. Lutam como Bento e tantos outros farroupilhas para manterem suas crias em volta e ilesas. Mas tudo tem um tempo na vida. Há tempo de semear e tempo de colher. Há tempo de comemorar e tempo de começar tudo de novo esperando que no final do proximo ano estejamos juntos para comemorar mais uma vez.
Bagé é um pouco disso tudo. Família também....

3 comentários:

  1. Concordo perfeitamente, O RS e Bagé onde quem não é funcionário publico conseguia emprego nas lojas obino que está em serios riscos financeiros.
    Quando sai de Bagé e fui para Manaus deixei casa, moveis, etc... com a plena certeza que em 3 anos estaria de volta, hojem faz 21a, pois fiquei apavorado com a falta de desenvolvimento, a única coisa que verifiquei foi os canteiros da osorio.
    Quando vou a Bagé informo a minha familia dizendo que vamos para o berço da civilização que não evoluiu. Um abraço.

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  2. Tenho dois amigos ai em Lucas, o Antonio Joao (Janjao) e a Alice Azambuja (Buja) professores de educação fisica, ela de Bagé e ele criado em Bage porem é carioca.

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  3. Caro anônimo! Obrigado pelo comentário. Tenho vontade muitas vezes de voltar pra terrinha, mas a vontade passa quando chego lá. Conheço a Buja e o Janjão e são pessoas muito bacanas. Espero que uma hora destas vc se identifique pra que possamos conversar e continue comentando. Abraço e obrigado!

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