segunda-feira, 29 de março de 2021

FARINHA DO MESMO SACO!









 No início dos anos 80, finalizamos um ciclo em Bagé e mudamos para Passo Fundo. Meu pai foi promovido à gerente da Ipiranga, distribuidora de petróleo. Dois motivos de orgulho, a promoção de um cara que vestiu sempre a camisa da empresa e que ocupava o cargo de escriturário (auxiliar administrativo) e ao mesmo tempo encerrava o segundo grau junto comigo. Por sinal eu acabei indo receber o seu diploma já que estava em seu novo cargo em sua nova cidade.

Lá  conheci a pizza italiana e o xis de verdade, além da sopa de agnoline, servida em um casamento em Nova Bassano como entrada, o que estranhei muito, e lá comecei minha experiência política.

Entrei para um cursinho pré-vestibular chamado Gama, que pertencia aos professores Romero, de Física, e Salete, a Saletinha, como gostava de ser chamada, que ministrava Química. Fiz bons amigos: Jair, que faleceu precocemente em um acidente de moto logo depois de passar em Odontologia, Miguel, Glaucia, Sandra e Sarita. 

Miguel tinha um irmão petista de carteirinha e como a sede do PT era praticamente vizinha do cursinho, começamos a frequentar as reuniões. Na faculdade fui líder estudantil e presidente do diretório acadêmico, além de secretário de imprensa. Logo ideias socialistas de acabar com a pobreza, valorizar a educação e trabalho para todos começaram a fazer parte da minha vida de idealista e sonhador. Enfim, o tão esperado futuro da nação viraria presente.

Do nada surgiu um tal de "caçador de marajás", Fernando Collor de Mello, que em seu programa de campanha inclusive usou a ex-mulher de Lula para chocar a opinião pública e vencer as eleições. Assim como caçou, foi cassado, envolvido em escândalos por todos os lados. Estava desenhado o caminho para um salvador da pátria, Lula da Silva.

Muitos colegas ligados à Brizola me diziam: Jaime, um metalúrgico, analfabeto, aposentado por causa de um dedo. Precisamos de mais! Mas meu argumento era mais forte. Não era um analfabeto apenas. Era um homem sofrido e envolvido com as causas sociais. Tinha excelentes nomes que o ajudariam a governar: Aluísio Mercadante, José Genoíno, José Dirceu, Raul Pont, Tarso Genro, pessoas que representavam o ideal pregado pelo partido.

Talvez, os primeiros dois anos de governo foram de inspiração. A inflação caiu, aumentaram os empregos e o país começou a sonhar. 

Com o passar dos anos virou um conto de fadas de terror. O príncipe virou o sapo barbudo. Os escândalos triplicaram. Mensalão, petrolão, desvios de grandes somas, saques no BNDES para financiar obras em países com ditaduras sangrentas. Acabou com a faculdade de  Jornalismo, quadruplicaram as faculdades de Medicina, sem mestres, sem doutores, sem sedes, formando péssimos profissionais, talvez para ficarem ao nível do "mais médicos" que começara a entrar no país.

O sonho virou pesadelo. E o resto vocês já sabem. Entrou uma presidente com o cérebro lesado, manipulada pelo partido. Dona de discursos com frases de efeito, sem pé nem cabeça.

Acabara a época dos políticos sérios, estudiosos e de confiança. que entravam no governo com o seu capital  e saíam com o mesmo, sem adquirir grandes posses.

Para derrubar a ditadura petista que se instalara, restou apenas o projeto de um tenente que na aposentadoria, e somente com ela, recebeu o título de capitão do exército. Com fama de religioso, cheio de princípios e que não media palavras para demonstrar sua insatisfação com a corrupção instalada e a insegurança do povo chegou ao poder não por ser o cara ideal, mas porque não tinha outro melhor.

Mas, parece que estamos fadados a ser governados por pessoas desgovernadas. Do mito nada restou! Com uma língua maior do que a boca, insensível a tudo e a todos, perdeu o trem da história por sua total incompetência de governar. Por não aceitar ser contrariado, pelas más escolhas para os ministérios, por se cercar de pessoas que falam o nome de Deus em vão o tempo todo e pela má criação dos filhos, que estão enriquecendo, como assim fizeram os filhos de Lula, mas não em silêncio. Falastrôes como o pai, ostentam seu crescimento nas redes sociais e na cara dos seus eleitores miseráveis.

Ainda temos dois anos pela frente. Não creio mais nos políticos, principalmente nos que usam a religião e o nome de Deus para se darem bem. A pandemia está aí consumindo as famílias. E o presidente foi muito estúpido em não perceber seu erro. Em não voltar atrás nas suas condutas. Afinal, parte das pessoas seguem cegamente os seus passos. Se ele fala que é uma gripezinha, se não usa as únicas defesas certas que temos, a máscara e o não aglomerar, essas pessoas se refletem no seu espelho. Em dezembro quando começaram as vendas de vacinas já era para ter ido às compras e seria um novo salvador da pátria, mas preferiu ficar de braços cruzados, fazendo briguinhas políticas com os adversários a assumir o comando do navio chamado Brasil, como um chefe da nação e cumprir assim as obrigações com seu povo.

Do povo não espero mais nada! Sem educação e sem cultura se aproveitam da guerra invisível contra o vírus para aumentarem os preços dos insumos, para ficarem mais vagabundos, para aglomerarem aumentando a contaminação, a ocupação dos leitos dos hospitais sucateados nos últimos 15 anos, e por fim, o número de mortes. 

A pandemia nos trouxe muitas lições, todas aprendidas por quem já aprende tudo facilmente. A solidariedade, a doação, a entrega dos profissionais médicos e de enfermagem. A luta do povo trabalhador que faz o possível e o impossível para sobreviver. Infelizmente,  também provou mais uma vez que os que parasitam e vegetam preferem a esmola do governo a trabalharem honestamente. Que o egoísmo e os interesses próprios sempre prevalecem. Que os políticos apenas usam o povo como gado, como escudo e como bucha de canhão. Empregos para os amigos e abandono dos parceiros. Essa é a realidade! Que me perdoem a amargura. Vida que segue! Porque quem ama o que faz, quem respeita as leis, quem não mendiga cargos de confiança, quem tem uma profissão digna e uma família amorosa, esses sobreviverão.

De resto, o que vivi nos anos 80 e o que percebo hoje é que todos são farinha do mesmo saco! Lula e a quadrilha do PT nunca mais! E que até 2022 surja uma terceira via, alguém que honre o cargo de chefe de estado, que seja honesto, coerente e civilizado.

Para finalizar, apenas um pedido a vocês.  Coloquem amor no que fazem, não importa o trabalho. Ele nos trás dignidade sempre! E se puderem, protejam suas famílias.  Só assim Deus estará por nós!

E viva la vida!

domingo, 28 de março de 2021

VOCÊ











 Você chegou como quem chega do nada

na bagagem um sorriso 

e o bater de um coração

transformou o inverno em primavera

brotou a flor antecipando meu verão.

Você chegou como luar pela janela

rompeu frestas, fez-se a luz

onde havia a escuridão.

Fez da lenha mais molhada

fogo intenso que deságua ´

como lavas

em um vulcão em erupção.

Por orar todas as noites por ti

é que vi meus sentimentos

atropelarem  minha razão 

essa luz que vem de ti 

é muito mais do que pedi

por isso agradeço em oração.

Você chegou tão menina, tão mulher

trouxe junto a alegria ao meu porto solidão

essa âncora que ninguém acredita

mas se sente quando afunda dentro do coração

Por acreditar tanto em ti

já me encontrei e me perdi

nesses alto mares de paixão

essa dor que doía em mim

teve início, meio e fim

e agora posso compor 
tua canção.


quarta-feira, 3 de março de 2021

ARRANCHADO














Quando somos crianças achamos que nosso pai é um super-herói. Quando crescemos, descobrimos que realmente o é.  Das promessas do meu pai para nós só existiu uma. "Todos terão direito a estudar! O restante depende de cada um de vocês!" E foi assim....

Estudei meu primeiro e segundo graus na época, no colégio Nossa Senhora Auxiliadora, sempre com o esforço dos meus pais. Todo início de ano minha mãe batia à porta de um deputado do município, para conseguir uma "bolsa de estudos". Conseguia metade da mensalidade, e a outra ficava por conta do meu pai. Assim foi quando entrei em Medicina em uma universidade particular. Não sabia como ia fazer para pagar a mensalidade, estada, etc. Conseguimos o disputado "crédito educativo". Da família, vinha o apoio necessário, mais dinheiro para o aluguel, que no início eu dividia com mais 2 em uma quitinete, e vinte tíquetes restaurante que o pai tirava do orçamento da família e me mandava para eu passar o mês. 

Arranchado em Passo Fundo, recebia de vez em quando remessas de charque, erva-mate e rapadura, que adoçava a vida do bageense, e  que mais tarde ficaria escravo da diabetes. Cada presente, carta, telefonema nas filas intermináveis da crt, serviam para matar a saudade e revigorar o ânimo para os dias em que a vida se resumia em anatomia, fisiologia e bioquímica.

"Nessa colmeia povoeira, onde fiz arranchamento, amarro fletes de sonhos em palanques de cimento. Vou bebendo nostalgias, de sanga, pitanga e vento, sesmarias de saudade não cabem no apartamento". 

Os dias passavam rápidos. Entre as aulas e provas, tinha ainda que fazer comida a cada dois dias; outro colega cozinhava e dividia comigo as despesas, e ainda tinha que encarar o tanque para lavar as roupas, incluindo as brancas e passá-las da melhor maneira possível. Dormia em um bicama e os outros dois em um beliche. Claro que havia as festas no prédio, nos fins de semana de inverno,em que dividíamos nossas tristezas e alegrias, garrafões de vinho "Quinta do Monte" e " Pérgola", comendo sopa e strogonoff de carne e frango e ouvindo boa música.

Na faculdade conheci a mãe da minha filha. E apesar de agradecer a Deus por tê-la, minha filha, chegou em um momento delicado. A gravidez não foi planejada e para dois acadêmicos a coisa foi ainda mais enroscada. Em dezembro fomos para a praia e lá meus pais, mirando a barriga enorme da namorada descobriram que ela estava grávida. Do choque à primeira conversa e a preocupação com a faculdade. 

"Quando a lua se debruça no arranha-céu dos viveiros onde arranchei minha alma no meu exílio povoeiro. Coiceia dentro do peito, um coração caborteiro, me sinto um pássaro preso na angústia do cativeiro..."

Mais uma vez meu super-herói sem capa e sem nenhum lastro ou herança de família, vendeu o primeiro carro zero km que havia comprado, uma parati branca, e comprou um apartamento  na cidade para eu morar com a namorada que por conta,
da circunstância e de minha educação, viraria minha esposa durante um rápido período. O mundo virou de cabeça para baixo, e entre fraldas de tecido sujas, louças apinhadas na pia, almoços e jantas preparados pela gente, durante um ano consegui estudar e até tirar boas notas. Infelizmente nenhum amor dura quando não há persistência, tolerância e reciprocidade. A formatura da minha parceira que deveria ser um motivo para aliviar meu pai acabou sendo um dos motivos para a separação definitiva. Minha filha foi morar com a mãe e com a avó que não era pessoa de bom coração e me fez passar por maus bocados durante um bom tempo. Meu pai, por obra do destino, mudou-se para Passo Fundo e eu acabei me arranchando  com eles novamente. Na época ele gostava muito de uma música chamada "Arranchado" que o César Passarinho cantava e me disse, "essa é tua música:" "Vou embora pra querência, pra arranchar no meu chão. Amanhã eu ponho anúncio nos grandes classificados. Vende-se um apartamento no coração da cidade, a preço de ocasião, por motivo de saudade." E o apartamento voltou a seu legítimo dono e ele vendeu para acelerar a construção da sua casa nova no bairro vergueiro. 

Meu super-herói partiu cedo e me deixou órfão de seu conselho e conhecimento. Quando ouço essa música e tantas outras de que ele gostava, me emociono e viajo até a infância, onde tudo começou. Sem ele, com certeza, as criptonitas, os vilões, as onças e sucuris, eu jamais poderia ter enfrentado.