sábado, 12 de dezembro de 2020

MEUS PÉS!

 Meus pés nunca foram normais. Não que fossem tortos ou teimosos, mas, desde cedo deram trabalho aos meus pais. Talvez, há 50 anos, a conduta para "pé chato" fosse mais agressiva e não menos cara, mas quando se é leigo e vê seu filho sem as dobras do pé e caindo com facilidade quando usa sapatinhos, é uma tragédia familiar. Assim, como tive uma convulsão em presença de febre e acabei usando anticonvulsivante durante um tempo, porque na época era a conduta, já que a interpretação do eletroencefalograma era de epilepsia e não de imaturidade do cérebro, acabei usando botinhas especiais com uma forma de metal para tentar simular a "voltinha" do pé. Com certeza não saiu barato! 

E assim como primogênito já começava a dar prejuízos para a família que se formava.

Idas e vindas sem necessidade ao neurologista em Porto Alegre, sempre nos ônibus da viação "Ouro e Prata" e forma de metal em sapatos e botas que também eram desnecessários se fossem nos dias de hoje.

Assim meus pés foram tratados com todo cuidado possível, sempre onerando o orçamento da família. Logo, 2 anos após meu nascimento chegaria meu segundo irmão, ampliando o amor e o carinho que sempre fizeram parte daquele lar.

Não sei bem quando parei de usar os sapatos especiais, mas, com certeza foi um alívio para o pequeno bolso do meu pai. Aos 5 ou 6 anos de idade dei mais prejuízo. Junto com a alegria de ser um bom aluno veio a necessidade de usar óculos, coincidindo outra vez com mais uma chegada da cegonha. Era meu terceiro mano que chegava para fechar o grupo masculino, que mais tarde seriam "os três mosqueteiros".

Quanto aos meus pés entre "congas" e botas "sete léguas", em dias de chuva, estavam comportados. Conseguia correr como um menino normal e até fui um bom jogador de futebol até a vida adulta. Mas, outra vez os meus pés marcaram presença, me fazendo passar vergonha e aumentar meu cuidado toda a vez que iria sentar de pernas cruzadas ou me ajoelhar para rezar na capela da vila. Não sei bem se foi antes dos 10 anos ou após. Já éramos quatro irmãos. Em uma última tentativa, não sei se desesperada ou não, minha mãe ficou grávida e para a surpresa de todos chegou minha irmã, que definitivamente fecharia o grupo familiar.

Ah! Meus pés começaram a progredir e começaram a usar os famosos "kichutes" que além de ser o calçado do dia a dia, era usado com muito orgulho nas aulas de educação física e no futebol. 

Mas chegaram os sapatos e meus pés parece que não se deram muito bem. Teimavam em furar no mesmo lugar, bem embaixo do metatarso medial, abrindo grandes círculos e furando minhas meias. Os invernos se tornaram um problema sério. Estava em um colégio particular, pago com o esforço do meus pais e com "bolsas de estudo", e sempre com o sapato furado. Enchia de papelão no local que durante o dia ia se desmanchando com a umidade. No final do dia estava com tudo desmanchado e uma nova meia furada ou com o furo ampliado. 

Nas missas na capelinha Nossa Senhora das Graças, aos sábados à noite, na hora em que o padre Fredolin Brauner, narrava a última ceia, meus pés procuravam o último banco da igreja para  ajoelhar, talvez envergonhados por me fazerem sentir vergonha, talvez porque lá se sentiam melhor com a exposição mais tranquila, o que era normal para eles.

O tempo passou e meus pés cresceram e amadureceram. Nunca mais quiseram ser o ator principal do meu corpo e se contentaram em ser coadjuvantes, mesmo quando,
eu em um surto de bobeira raivosa, fraturei meu dedo do pé direito chutando um banco de concreto. 

Hoje, longe dos meus pais, eles andam comportados, não dão mais prejuízos e se contentam em me carregar de um lado para o outro, me acompanhando por vezes nas aulas de tênis. Esqueci de falar que de vez em quando o dedão fraturado fura as meias na ponta. 

Assim, deveriam ser todos os pés, comportados, seguros de si e prontos para a vida. Talvez os meus nasceram para aparecer mais que o resto do corpo, mas o amadurecimento finalmente quase chegou.  

Ah! Ainda confiro meus sapatos todos os dias quando vou calçá-los. Vá que eles voltem a se revoltar!

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