
Mais um domingo de páscoa. Outra vez comemoramos a ressurreição de Cristo e esperamos ressuscitar na companhia dele. Outra páscoa no centro do país. Estar em uma cidade do interior do Mato Grosso é como estar do outro lado do mundo. Não é pela distância da capital ou da sua terra natal, mas por estar tão longe das pessoas que amamos, como se estivessemos em um lugar de línguas e costumes diferentes. Viemos para este lugar não para visitar amigos ou colocar no álbum fotos dos poucos pontos turísticos daqui, mas simplesmente para trabalhar. Somos patrões e escravos. Senhores de nada. Em um país onde quem trabalha mais, menos valorizado é, aqui não foge dos padrões. Somos soldados pedindo esmola! Estamos presos aqui por nossa conta. Quando saí de casa, adolescente, saí atrás do sonho de ser médico e ajudar pessoas. Crianças, principalmente, pois já havia decidido que o caminho a ser seguido seria pediatria. Lembro do orgulho de meu pai e minha família em minha formatura, mas lembro de me ver no espelho me perguntando o que fazer depois. Abandonamos a segurança de nosso lar para conquistarmos o mundo e nossa soberania. Nos tornamos homens e começamos nossa busca incessante por um lugar ao sol e desde cedo descobrimos que competência não é sinônimo de sucesso. Aprendemos que na vida, estudar é necessário, mas não nos ensinam o quanto. Os que perderam noites acabam cedo ou tarde entrando no mesmo barco que aqueles que estudaram o básico para serem aprovados, porque quem emprega não tem conhecimento ou cultura para valorizar o bom e nem separar o joio do trigo. Não nos preparam para estas batalhas de cartas marcadas. Somos educados para trabalhar e cumprir leis e não para entender porque pagamos tantos impostos, porque nosso ganha-pão é submetido à interferência de tanta gente se somos profissionais dito liberais. Todos os dias novos impostos são criados para sustentar viciados, assassinos, ladrões e principalmente a categoria que parasita o país, a classe política. Estudamos para isso. Saímos de casa. Escolhemos o lugar para criar nossos filhos, sonhando com o paraíso. E apenas isso. Nos afastamos do nosso alicerce, que é nossa família. Perdemos avós, pais, amigos pelo caminho, na distância de nossos passos, para isso. Trabalhar e trabalhar. Não vemos o sol nascer e nem se pôr, porque estamos trabalhando. Não! Esta cidade que escolhi não é o paraíso, longe disso. Apenas o sorriso da família é que remove as montanhas e nos faz seguir em frente, em busca da felicidade. Lembro de uma música que dizia " se há uma crise lá fora não fui eu quem fiz" . Será que devemos pensar assim para ser feliz? A vontade às vezes é largar tudo e fugir, mas para onde? Ficamos dependente dessa adrenalina e as pessoas cada vez mais dependentes da gente. Apenas quem está no comando não vê. Coloca todos na mesma vala. Temos que dar um jeito nisso ou vamos acabar engrossando as fileiras dos sem sonhos, que apenas sobrevivem das esmolas dadas pelo governo. Ainda bem que todo o ano Cristo volta para ressuscitar nossa vontade, sonhos e perseverança. É a páscoa que nos faz seguir em frente. Então abram seus corações e feliz páscoa a todos!
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