terça-feira, 1 de março de 2011

O ADEUS A MOACYR


A literatura brasileira está de luto. Na madrugada de domingo descansou mais um mestre das letras: Moacyr Jaime Scliar. Gaucho de Porto Alegre, nascido no bairro do Bom-fim, de origem judaica, estava com 74 anos. Médico, especialista em saúde pública, professor universitário e principalmente, um homem com o dom de escrever. O último livro que li dele foi "Meu Filho, o Doutor- Medicina e Judaísmo na História, na Literatura- e no Humor", de 2001, que faz uma viagem pelos bastidores da Medicina, e seus condicionamentos sociais, políticos e culturais, como a trajetória judaica. Scliar era assim. Escreveu ensaios, contos, romances adultos e infanto-juvenis e crônicas sobre a vida cotidiana, o socialismo, a classe média e a imigração judaica, um dos seus temas preferidos.
Li muito durante o segundo grau e a faculdade e ainda leio, embora hoje esteja mais para Robin Cook e Stephen King, Moacyr era um dos meus favoritos, junto com Mário Quintana, Érico Veríssimo, Josué Guimarães e Luís Fernando Veríssimo.
Na minha estante ainda moram alguns livros dele, "Max e os Felinos", " O Anão no Televisor", Guerra no Bom-Fim", " Mes de Cães Danados". Li também, nos velhos tempos, "Os Voluntários", "O Ciclo das Águas", " Os Deuses de Raquel", " A Balada do Falso Messias", "O Exército de um Homem Só", " Cavalos e Obeliscos", " A Festa no Castelo", mas o meu favorito sem dúvida alguma sempre foi " O Centauro no Jardim", que mescla a história de judeus imigrantes do leste europeu apartir das guerras mundiais, suas dificuldades de ambientalização e a perda gradativa de suas raízes e tradições no judaísmo com o passar dos anos. Também mistura o fantástico e um realismo mágico, que aparece em muitas de suas estórias. Guedali, o personagem principal, é um judeu russo que nasce centauro e passa parte de sua vida como tal e parte, como homem. Há um simbolismo no livro que é a duplicidade do judeu, quer na questão racial, quer na questão religiosa. Para quem curte uma boa leitura é um prato cheio.
O bom da escrita é esta herança que fica. Lamentavelmente os poucos livros que caem nas mãos da maioria de nossa população apenas serve para enfeitar as estantes. Morre Scliar, o escritor, ficamos órfãos de sua presença, mas não dessa obra maravilhosa, ao alcance de todos, basta correr um pouquinho atrás que você não vai se arrepender.

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