domingo, 27 de março de 2011

DOS VENENOS DO PROGRESSO


O tempo passa. As notícias são diárias e a ignorância também. O Japão sofre as consequências de um país desenvolvido, desenvolvido demais, contra as forças da natureza e dos homens. Temos culpa nisso e já está provado. Desmatamos, poluímos, matamos e roubamos em prol do progresso ou de nós mesmos.
Ás vezes temos vergonha do lugar onde moramos, não pelo local, mas pelos moradores. Os limites são de uma cidade, de um pensamento, de uma mania de grandeza idiota e maniqueísta. Somos seres humanos normais, acordamos, escovamos os dentes, tomamos café e vamos ao trabalho. Não meus caros amigos, Lucas do Rio Verde não é o centro do mundo como pensam alguns. Temos os mesmos problemas que qualquer habitante desde planeta chamado terra tem. Vamos celebrar a estupidez humana, dizia Renato Russo. E como somos estúpidos Renato! O progresso é maravilhoso, mas ficamos escravos dele. O progresso é assim, chega como quem não quer nada, nos dá grana e presente, o futuro, esse a Deus pertence. A pesquisa foi feita. Poderia ser feita em qualquer lugar agrícola desse país. Mas foi feita aqui nesta cidade quase pacata e quase fantástica de Lucas do Rio Verde, MT. Que bom que foi feita aqui, é o que pessoas decentes e esclarecidas deveriam falar. O veneno está aí batendo na sua rua, casa, família. Surpreendentemente o que ouvimos e lemos é a escória da sociedade se lamentando, como se o mundo tivesse contra nós. Sim! Um dossiê, um trabalho encomendado pelo FBI, CIA, SNI, ou apenas pela oposição, que por sinal baseia-se agricultores, o que não me surpreende nenhum pouco. Para quem não sabe colhemos o que plantamos. Na vida é sempre assim. A agricultura é assim. Você planta e vai torcendo para que tudo dê certo. Usa da sua astúcia, em plantar na época certa, usar o "defensivo" certo, e reza para que o tempo conspire a seu favor. É isso, e apenas isso! Os defensivos são venenos e com o tempo vão ficando obsoletos. As pragas da lavoura vão ficando resistentes e não é qualquer remedinho que vai matar. Na medicina é igual. Médicos bons e ruins usam antibióticos por qualquer motivo e competem ainda com balconistas de farmácia fustrados que continuam receitando antibióticos e deixando as bactérias cada vez mais fortes. Somos privilegiados. O trabalho feito pelo doutor em toxicologia, Wanderlei Pignatti , com a equipe da Fiocruz merece os nossos aplausos. Isso poderia ter sido feito em qualquer cidade dessa região, mas foi feita aqui. No Rio Grande do Sul sabe-se há muito tempo dos efeitos dessas drogas nos seres humanos. Intoxicações, mortes, mal-formações e crianças com deficit no desenvolvimento cognitivo. Parece que as pessoas não querem ouvir ou ler a verdade. Sim é verdade que os defensivos se depositam na natureza. Na terra, na água, no ar e em tudo que provém dela. Ainda não sabemos a dimensão de tudo isto. Não temos a quantidade de veneno que tem no ar, na água, no leite materno e nos alimentos que consumimos, e não sabemos a
quantidade que circula em nosso sangue para desenvolver alguma doença. Quem à noite não espirrou sentindo o cheiro de penas queimadas que poluem nosso ar?
A verdade é uma só. Quanto mais usarmos os defensivos, mais resistentes, as pragas da lavoura serão e mais agressivos serão as próximos. Quanto mais antibióticos usados de maneira corriqueira, mais fortes serão as bactérias e pior serão as consequências para a natureza e para os homens. Assim é a vida. É o preço do progresso e do sucesso nessa cidade e em qualquer outra que esteja em fase de expansão e crescimento agrícola. Devemos agradecer a pesquisa porque temos a chance de mudar isso. Aumentar a fiscalização por conta dos órgãos competentes. Observar e cobrar o lixo tóxico e não apenas a produção de fraldas sujas das clínicas.
Acorda para a vida povo brasileiro! Senão nossas terras não irão mais produzir, nossas crianças serão apenas eleitores sem cérebro e sem sonhos, nossa próxima luta será de paus e pedras, como disse Einstein, e nossos próximos antibióticos serão os chas da vovó.

domingo, 13 de março de 2011

AS TRISTEZAS E AGRURAS DE CADA UM


Esta semana tive uma surpresa desagradável ao abastecer o carro. A gasolina subiu. O governo já havia dado indícios disso apartir do momento em que o preço do álcool se elevava. Neste país é assim. O governo aumenta o bolsa-família e quem paga conta é o cidadão honesto. Aposenta políticos de um so mandato, e ruim, com salários astronômicos, e não um trabalhador com grave problema de saúde e que vai ganhar um valor miserável o resto de sua miserável vida. Acho que meu mau-humor está virando doença. Minha vida é um imposto só. talvez por isso! Trabalhamos para pagar a vida boa de poucos as custas do nosso suor. Estamos passando por uma fase de desvalorização total. Bons profissionais são colocados na mesma balança que os maus, vencendo os de caráter duvidoso, pela sua maior qualidade, o puxa-saquismo. A ignorância assola o país. Talvez assim, seja mais fácil governar. O Maranhão de Sarney era assim e nosso nobre país parece se espelhar nele. Os professores são desvalorizados, os médicos reféns de um modelo ultrapassado chamado SUS e de cooperativas que eles mesmo criaram. O povo não sabe ou não quer saber. Ele prefere ficar assistindo aos pseudo-guerreiros do big-brother, roteirizados por Bial, do que entender por que o único hospital da cidade está quebrado, ou porque não vem mais profissionais de saúde para este município. Os consultórios estão lotados e os bolsos cada vez mais vazios. Por que proliferam os postos de gasolina e minguam as bibliotecas? Por que cassam os vendedores de cds e dvds piratas, de péssima qualidade, se não há locais que vendam os originais? Ninguém questiona nada. Quando questionam é para saber se o exame, o remédio, a cirurgia, a comida, o transporte é de graça, ou de quantos dias é o atestado. A culpa é cada vez mais nossa. Nossa imprensa, com raras exceções, é analfabeta. Textos sem concordância, que fazem você se esforçar na interpretação antes de entender seu significado. Erros crassos da língua-mãe. Apresentadores com péssima dicção e leitura. Comerciais como se fossem as melhores notícias, e a música de baixo nível. Meus argumentos se esvaem diante de tantos desmandos e tanta falta de noção e bom-senso. A nossa sorte é que temos a natureza a nosso favor, só não sabemos até quando. O Japão foi destroçado na segunda guerra. Reconstruíram o país e agora sofrem com as agruras de vulcões e tsunamis. Vão se erguer de novo às custas do trabalho e da cultura de um povo que não desiste nunca. Quanto a nós, Deus nos livre dessas tragédias. Morreríamos sem lutar. Ficaríamos com certeza esperando, apenas esperando, a ajuda do governo ou a morte.
Desculpem-me as pessoas que curtem meu blog, mas esta é a forma que eu achei para desabafar e extravasar minha tristeza e indignação.

domingo, 6 de março de 2011

DOMINGO DE CARNAVAL



Domingo de carnaval! Para quem não sabe, esta festa, surgiu após a implantação da semana santa pela igreja católica no século XI, antecedida pela quaresma, que seriam 40 dias de jejum. Isso seria marcado por festividades nos dias que antecediam a quarta-feira de cinzas, o primeiro dia da Quaresma. A palavra carnaval está relacionada com a idéia de deleite dos prazeres da carne. "Carnis vallis" ( carne e prazeres), o que tem muito a ver com os dias de hoje.
O carnaval atual tem origem no século XIX, nas cidades européias e Paris foi a principal exportadora da festa com fantasias que temos hoje. Comecei falando disso porque estamos passando por mais um carnaval, e parece que o país para nesses dias e realmente esquece das agonias e agruras do cotidiano. Nunca gostei destes dias. Em minha cidade natal apreciava o carnaval de rua com suas 3 escolas de samba e muitos blocos que desciam a Avenida Sete todos os anos de minha infância. Minha avó levava suas cadeiras de abrir, era assim que as chamávamos, para desgosto do meu avô que detestava aquilo tudo, se instalava na avenida e só saía de lá quando passavam os últimos foliões. Havia o bloco da Tia Bolina, com um boneco enorme de uma negra, como nos carnavais do Recife. Era o nosso favorito. À meia-noite íamos para o clube que éramos sócios. Eu apenas ia para acompanhar meus pais que gostavam demais. Não curtia aquela procissão de alegria excessiva que andava e cantava as marchinhas ao redor do salão. Vez por outra uns mais excitados se envolviam em brigas e eram retirados sob protestos para fora do clube, retornando na noite seguinte para mais um "pulo" de carnaval.
Hoje moro em uma cidade nova em que não existem escolas de samba e os blocos são amontoados de jovens, que na sua grande maioria, se reúnem para beber e ouvir qualquer baboseira que não tem nada a ver com o carnaval até chegar a hora de ir para o lago onde a prefeitura colocou uma banda para tocar axé até a madrugada. Sei lá se isso é válido. Mas em uma cidade que não oferece nada de diversão, estes dias são a válvula de escape de todos que aqui vivem para trabalhar.
Acho que estou ficando velho e fico irritado com tudo. Talvez seja a música de carnaval, que mesmo com a chuva torrencial que tem caído nestas noites, ainda bate à minha janela até as 4h da manhã. Talvez a falta de opções que vai impondo a nossa vida um cotidiano de trabalho que não tem mais saída a não ser trabalhar mais. Agora temos um sol tímido aparecendo em meio às nuvens, mas a chuva vai voltar daqui a pouco. Aqui no MT essa época é assim. Estou aqui ouvindo uma música que diz "um dia voltarei a querência...", sentindo o estalar do carvão na churrasqueira e tomando um chimarrão. É o que faço todos os domingos. Quem sabe o ano que vem não entre em um bloco e vou para o lago com o povo tomar banho de chuva e lembrar dos velhos carnavais, já que voltar para a querência é um sonho cada vez mais distante.

terça-feira, 1 de março de 2011

O ADEUS A MOACYR


A literatura brasileira está de luto. Na madrugada de domingo descansou mais um mestre das letras: Moacyr Jaime Scliar. Gaucho de Porto Alegre, nascido no bairro do Bom-fim, de origem judaica, estava com 74 anos. Médico, especialista em saúde pública, professor universitário e principalmente, um homem com o dom de escrever. O último livro que li dele foi "Meu Filho, o Doutor- Medicina e Judaísmo na História, na Literatura- e no Humor", de 2001, que faz uma viagem pelos bastidores da Medicina, e seus condicionamentos sociais, políticos e culturais, como a trajetória judaica. Scliar era assim. Escreveu ensaios, contos, romances adultos e infanto-juvenis e crônicas sobre a vida cotidiana, o socialismo, a classe média e a imigração judaica, um dos seus temas preferidos.
Li muito durante o segundo grau e a faculdade e ainda leio, embora hoje esteja mais para Robin Cook e Stephen King, Moacyr era um dos meus favoritos, junto com Mário Quintana, Érico Veríssimo, Josué Guimarães e Luís Fernando Veríssimo.
Na minha estante ainda moram alguns livros dele, "Max e os Felinos", " O Anão no Televisor", Guerra no Bom-Fim", " Mes de Cães Danados". Li também, nos velhos tempos, "Os Voluntários", "O Ciclo das Águas", " Os Deuses de Raquel", " A Balada do Falso Messias", "O Exército de um Homem Só", " Cavalos e Obeliscos", " A Festa no Castelo", mas o meu favorito sem dúvida alguma sempre foi " O Centauro no Jardim", que mescla a história de judeus imigrantes do leste europeu apartir das guerras mundiais, suas dificuldades de ambientalização e a perda gradativa de suas raízes e tradições no judaísmo com o passar dos anos. Também mistura o fantástico e um realismo mágico, que aparece em muitas de suas estórias. Guedali, o personagem principal, é um judeu russo que nasce centauro e passa parte de sua vida como tal e parte, como homem. Há um simbolismo no livro que é a duplicidade do judeu, quer na questão racial, quer na questão religiosa. Para quem curte uma boa leitura é um prato cheio.
O bom da escrita é esta herança que fica. Lamentavelmente os poucos livros que caem nas mãos da maioria de nossa população apenas serve para enfeitar as estantes. Morre Scliar, o escritor, ficamos órfãos de sua presença, mas não dessa obra maravilhosa, ao alcance de todos, basta correr um pouquinho atrás que você não vai se arrepender.