segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A VOLTA


Estou de volta ao trabalho. Gostaria de escrever todos os dias, mas o cotidiano acaba matando as idéias e meu espírito rebelde vai ficando cada vez mais domado. A cada dia que passa parece que vamos esquecendo dos nossos sonhos e deixando para trás o empreendedor e guerreiro que havia dentro da gente. O dia-dia é assim, cruel, egoísta e mata nossa vontade de querer mais, ser mais. Somos escravos de nós mesmos, pois concordamos com tudo o que nos cerca. Somos apenas números nesse mundo que vivemos. Vejam pela nossa cozinha ou nossa cidade, como queiram chamar. Há 13 anos quando cheguei não possuia mais que 14 mil habitantes. As pessoas pareciam mais felizes e o máximo de maldade eram as fofocas que livremente fluíam pelas vizinhas sem porvir ou nos salões de beleza. Hoje são mais de 40 mil pessoas, buscando um lugar ao sol que brilha apenas para poucos. O local perdeu sua magia, seu entusiasmo adolescente e sua integridade moral que só os pequenos municípios tem. Toda a semana a polícia prende pelo menos 10 pessoas com alguma relação com o tráfico e na mesma semana a grande maioria está de volta às ruas por serem menores. Aumentaram os roubos, as agressões, o desrespeito. Desapareceram as expectativas de prosperidade e vida estável.
Está certo. Você está me achando pessimista. Também sinto isso. Mas quanto mais passam os anos mais eu vejo que os hipócritas, puxa-sacos e maus profissionais é que se dão bem. Estamos cada vez mais sós, mais presos em nosso trabalho e mais introspectivos. Como cantava Renato Russo: " Os assassinos estão livres, nós não estamos".

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Diário de Bordo: PASSO FUNDO

Nossa primeira e última parada no Rio Grande antes de subir para o Mato Grosso. Cidade linda! Continua crescendo para cima e para os lados, invadindo campos e plantações. Comércio em alta, mas poucas indústrias. Apesar da correria intensa e do trânsito caótico, Passo Fundo continua a viver de forma satisfatória. A Universidade de Passo Fundo e a medicina de alto padrão fazem com que a cidade proporcione um universo diferente da maioria das outras do estado. Já se vão 18 anos que eu saí da residência de Pediatria e parece que foi ontem. São aproximadamente 183 mil habitantes, mas com uma população flutuante importante graças à escolas, cursinhos e principalmente à universidade, que é uma das melhores do estado. Para algumas áreas, os atrativos de um bom salário já não existem mais e o custo de vida é igual a média de grande parte dos outros lugares. Mas, em uma sociedade globalizada as chances são maiores para os superespecializados e é isso que ocorre lá também. A diversificação cultural é de dar inveja a grandes centros e capitais, como a nossa Cuiabá. Eventos como, o Festival Internacional do Folclore, o Rodeio Internacional, com participações campeiras da Argentina, Uruguai e Paraguai, Campeonato Mundial de Bocha, Olímpiadas dos Surdos do Mercosul, Jornada Nacional de Literatura, Feira do livro e a Passodança, fazem parte do calendário anual, além do cinema e do teatro e colocam em definitivo Passo Fundo no mapa diferenciado da cena cultural brasileira. Mas, o melhor de tudo são as amizades que perduram e fazem com que a gente volte sempre a trilhar essa estrada e visitar essa cidade. Mesmo não nascendo ali deixamos nosso coração e um grande bocado de nossas vidas. Ali tive meu primeiro filho: uma meninda chamada Aline. Adquirimos conhecimento e experiência, profissional e de vida para enfrentar as dificuldades e hoje vivemos em outro lugar, distante,mas cultivando as mesmas tradições, os mesmos costumes como se nunca tivéssemos saído dali.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

HAPPY NEW YEAR!


O ano de 2010 se foi, mas sempre deixa algumas marcas que vamos levar alguns anos para amenizar. As cicatrizes ficam para lembrar as coisas boas e ruins que passaram. As contas que fizemos, por exemplo, estas nos acompanharão durante um bom tempo, assim como os amigos que fizemos e os que perdemos pelo caminho.
A passagem de ano serve para iluminar alguns caminhos, tomar outros e espiar se no fim do túnel ainda há alguma luz. Bom passar esta virada de ano aqui em Bagé com meus familiares. Bom rever cada um deles, às vezes, para lembrar que todos temos problemas e que a união em um momento como este pode nos trazer a solução para muitos deles. Está chegando a hora de pegar a estrada e encarar o novo ano, com suas dezenas de obstáculos e surpresas boas ou ruins que ele tem para nos oferecer. Mas a vida é assim. Muitos encontros e algumas despedidas. Quando encontro minha mãe, meus irmãos, é impossível não lembrar do meu pai que deve ter feito a ceia com Deus mais uma vez. Foi cedo meu velho e nos deixou um pouco órfãos. Impossível não lembrar dos amigos da infância e da adolescência que fizeram melhor nosso mundo. E a gente acaba pedindo mais. Mais tempo, mais vida para que essa celebração nunca acabe e que um dia todos voltem a se encontrar, para falar quem sabe, de coisas bobas, da primeira namorada,dos jogos de futebol no campinho, dos campeonatos de botão, das reuniões dançantes, da sopa da dona Cantalícia na escola, ou da primeira vez que escutamos "The Winner Takes It All" e nos emocionamos. Feliz ano novo a cada um que passou por nossa vida e a todos aqueles que ainda incógnitos, passarão por ela!

domingo, 2 de janeiro de 2011

Diário de bordo: BAGÉ


Até meus 14 anos de idade Rio Grande do Sul era o meu país e Bagé a capital dele. Conhecia apenas o Rio Grande e suas fronteiras com o Uruguai e a Argentina. Meu mundo era pequeno, mas achava que era o centro de tudo. Minha casa era enorme, o terreno sem fim e a cidade com cara de se perder por aí. Cresci e fui para outras querências, fazer cursinho pré-vestibular e faculdade e descobri que o mundo era bem mais do que isso. O hino que cantávamos quando pequeno, falando que Bagé era terra da gente onde o futuro dizia presente ficou no tempo. A letra esquecida em alguma gaveta e o futuro morreu. Hoje a cidade tem em torno de 12o mil habitantes. Minha escola não tem mais banda marcial. As fontes de renda do município, carne e lã já não são mais as mesmas.
Os anos passaram e as administrações passaram também e esqueceram de investir no público, como no restante do país. A cidadela dorme em berço esplendido. A maior parte das ruas tem calçamento precário e na frente da casa de minha mãe, em um bairro nobre e próximo ao centro, não tem calçamento e os esgotos estão a céu aberto. Parece que as pessoas aqui não sonham e não almejam nada além de formar uma família. Os empregos são escassos e os salários miseráveis. As pequenas empresas abrem em qualquer prédio sem o mínimo de investimento, sem fachadas, ou pinturas. A cidade parou no tempo e ficou esperando os milagres do governo Lula e de São Sebastião, seu padroeiro.
Os dois times da cidade, inimigos ferrenhos dentro e fora de campo não saem da segunda divisão do futebol gaucho há décadas. Jornais e rádios fecharam suas portas e há apenas um cinema que insistem em sobreviver.
A saúde está igual ao resto do Brasil, morta pelo Sus e sua política mau-caráter e deprimente, imposta por um governo esclavagista que dá esmolas ao povo em troca de votos. Os PSFs pagam mal e os profissionais que são poucos, fazem o que podem para sobreviver e atender a população.
Os governos foram matando pouco a pouco o futuro. Apenas as famílias sobrevivem amarradas no seio dos patriarcas e matriarcas que ainda existem, fortes e persistentes. Lutam como Bento e tantos outros farroupilhas para manterem suas crias em volta e ilesas. Mas tudo tem um tempo na vida. Há tempo de semear e tempo de colher. Há tempo de comemorar e tempo de começar tudo de novo esperando que no final do proximo ano estejamos juntos para comemorar mais uma vez.
Bagé é um pouco disso tudo. Família também....