
Á noite sonhei que eu caminhava nas ruas da infância que eu te falava
pedras, calçadas que eu conhecia,vozes de amigos que há muito eu não ouvia
rostos sorrindo, rostos cansados, que em grandes abraços se transformavam
Era criança, no inverno a geada, o branco nos campos que me encantava
chegava o verão, e tudo era festa,os banhos de açude, um dia de pesca.
bola de gude, bike e pandorga,,sonhos de escola,banda, balizas,
Viviane, Simone e Mila dançando a sorrir, sonho de guria,
pelas ruas de Bagé.
As avenidas enormes, as vitrines da Sete, a vila São João, Ipiranga,
a gasolina cheirando no ar, quilômetros para estudar e um dia ser gente.
Os trilhos da vinte, carinho de avós, hoje na garganta, um soluço, um nó.
E no campinho ao lado, o futebol bem jogado, a tarde e a noite pra nós era uma só
Carlinhos, Totona, o Claudio e o Zeca, os craques de ontem, agora são pais.
Os mundos que giram em rota inversa, por que não colidem e se unem em um só
para poder voltar e poder abraçar nos finais de tarde, o meu jovem pai,
que mesmo cansado trazia a esperança de dar aos seus filhos sua melhor herança,estudo.
Martinho Saraiva, Auxiliadora, preparando a vida que há de chegar
a história envelhece, os sonhos também, os passos mais lentos, o amor de alguém
pelas ruas de Bagé.
O time da escola já não joga mais, mas sei que a amizade não mudou jamais
os sinos da igreja na catedral chamando pra missa, um frio, temporal
os finais de ano, família reunida, troca de presentes, pedidos pra vida
Passaram-se os anos, mudou quase tudo, os pequenos erros, agora fatais
errar era humano, agora não mais, "não amar é sofrer, amar é sofrer demais"
pelas ruas de Bagé.
Sempre penso em voltar, Borges, Floriano, no fundo sou coração
paro, penso e choro,e quando as lágrimas secam
abro os olhos num vislumbre de razão,
já não sou mais a criança que um dia pegou rumo
apenas saio do prumo quando a saudade maltrata
apenas saio do prumo quando a saudade maltrata
Me fiz homem tão igual ao meu velho, amoroso, honesto, por vezes rude
e quando tento lembrar seu rosto basta me olhar no espelho
pois aquele que está ali não sou mais eu e não há nada que mude.
pois aquele que está ali não sou mais eu e não há nada que mude.
A ausência dói mais forte nos domingos de manhã
meu pai cevando a erva, minha mãe preparando o café
meu pai cevando a erva, minha mãe preparando o café
cheiros, sons e aromas que só a infância nos trás
os risos dos irmãos, o cheiro macio do pão, o latido de cachorros.
Acorda! isso não é real, apenas um sonho de uma noite de natal
do menino que pensava que a vida fosse uma brincadeira
e achava que sempre teria ao lado sua família inteira,
que um dia caminhavam de mãos dadas
pelas ruas de Bagé.
pelas ruas de Bagé.

