
Alguns dias nos separam de mais um pleito onde iremos escolher quem vai governar o Brasil nos próximos 4 anos. Ainda tenho registrado na memória os anos de pré-vestibular, onde meu cursinho situado na rua independência em Passo Fundo era vizinho de uma sede do PT. Havia um irmão de um colega que era o responsável pela sede, usava barba, uns óculos tipo John Lennon e uma camiseta vermelha com a afirmativa oPTei. Fiquei maravilhado com seu discurso de mudança, com sua integridade, com suas idéias de divisão de terras e de renda e com o fim da chamada burguesia que eu só conhecia da revolução francesa. Mas o que realmente me chamava a atenção era a fé depositada naquela estrela e nos líderes que levavam ela no peito. Nunca mais encontrei o irmao do Miga, mas ele teve influência nos meus primeiros anos de politização. Logo entrei na faculdade e levei comigo a certeza de que o Brasil mudaria um dia.
No meu terceiro ano, entrei para o diretório acadêmico como secretário de imprensa. Tínhamos alguns colegas do sexto ano já engajados com o socialismo e foi um ano com algumas paralisações contra abusos da universidade e contra alguns professores que não estavam qualificados para o ensino médico. No quarto ano assumi a presidência do diretório acadêmico da Medicina e acabei entendendo um pouco mais da política estudantil, frequentando reuniões no DCE, diretório central dos estudantes, e na reitoria com o reitor e seus subordinados. Descobri a força da união dos estudantes pelo bem comum, mas também o poder por trás da máquina que era a universidade.
O tempo passou, mas o ideal ficou plantado. Na minha cabeça e coração adolescentes acendeu uma chama de esperança de mudança. Já sabia contra quem ia lutar e porque. Nunca, liberdade, igualdade e fraternidade ficaram tão claros. A pobreza um dia iria acabar, não haveria mais bandidagem, apenas homens bons e de braços dados uns com os outros em prol de algo muito maior. Ledo engano.
Hoje vejo que nada mudou, apenas mudaram as moscas. Os que antes lutavam nos portões das fábricas por igualdade de salários, subiram em pedestais e amaram o poder e a glória que dele exala. Os que eram os colarinhos brancos, os marajás e senhores de escravos, não foram punidos, continuam a viver nas casas grandes, mas agora como comensais, aproveitando-se dos restos dos novos senhores do engenho chamado Brasil. E o povo, em um ato muito simples se dividiu. Os que ainda trabalham e sonham com um lugar melhor para os seus filhos e os que sem ter onde cair morto venderam sua alma por uma esmola apelidada de bolsa-família, bolsa-isso ou aquilo e parasitam os que conseguem produzir algo nessa terra que ficou árida de tanto ser explorada.
A igualdade está chegando, mas não como sonhamos um dia. Usando as palavras que ouvi naquela época de faculdade: Vem invadindo nossos jardins, pisoteando nossas flores, matando nossos cães, pilhando nossas casas, porque nos calamos todos esses anos e porque não gritamos já roubaram nossa voz. A igualdade tão sonhada é por baixo, dando valor não a quem tem menos, mas a quem faz menos. Não aqueles que suam no seu trabalho, mas aos que esperam sentados por um milagres na soleira de seus barracos. Esse é um novo tipo de governo, um governo que privilegia os que estudam menos, trabalham menos, sonham menos.
É essa a igualdade que vocês sonharam ? Se for me perdoem! Já parei de sonhar faz tempo.



